domingo, setembro 24, 2006

MUNDO CÃO


Diário de bordo:

Voltei a trabalhar em surfshop. Terrível. Mas o ser humano, especificamente o brasileiro, precisa sobreviver. Empurro com a barriga então. Escrever ou desenhar agora, só nos compactadíssimos intervalos de tempo. Uma calamidade.

Descobri que meu companheiro de surf de toda vida saíra da clínica de desintoxicação e reintegra-se à sociedade. Mas anda desanimado pra surfar. Jesus! Alguém precisa salvá-lo! E eu posso fazer isso. Bem, deixemos acontecer...

Festas. Emendando com a saída do trabalho, sem tempo de descanso. Consegui carona na última hora com meu brother, Salada, para ir à Gramado, pois Jeff, meu parceiro de balada, não pôde ir. Lá, fiquei num hotel com umas amigas. Deram-me guloseimas e enlouquecemos a ponto de perder a Coca-Cola Vibezone. Filosofia, vinho, um filme de 36 poses em 15 minutos, risada - muita risada... Porém, como minha intenção, acima de tudo, era estar com amigos, foi absolutamente melhor do que ter ido à festa. Contudo, ainda pegamos a after.
OBS.: Se for à Gramado, não vá ao Café Pand’oro.

Conversei na internet com uma garota que “conheci” (nos vimos, mas não nos falamos e nos achamos depois no Orkut. Viva à tecnologia...) numa festa e que parece haver entre a gente uma conexão transcendental de uma maneira tão invulgar que chego a desconfiar se sou um fantoche sendo empurrado por uma mão, sei lá, celestial. Não marcamos nada, nunca. Mas nossos caminhos estão se afunilando de forma cósmica. Deixemos acontecer...

Minha cunhada, que estava com o pé na cova devido ao abuso de crack, resolveu bancar a cristã arrependida e entrar na luta pela guarda do meu sobrinho de 4 anos - que vive comigo e minha família - mesmo sem nunca ter se interessado em vê-lo. Como para a justiça arcaica, mãe é mãe, as perspectivas ficam ruins. Era o que faltava. Posso esperar tudo dela, menos contrição.

Um conhecido resolveu desistir daqui e deu um tiro na própria cabeça. Sua atitude mexeu comigo. Recordei Sócrates, que ao receber a injusta sentença de execução via envenenamento por cicuta, bradou aos juízes “vós me condenais à morte, eu vos condeno à vida”.

Falei com Deus após um longo tempo como lobo solitário. Estou mal. Situação mal. Entretanto, nunca estive tão feliz. Foi bom revê-lo.

Um sábado qualquer a mais, nada incomum, até eu atender uma cliente aparentemente comum. Acredito em coincidências? Uma pequena morena simpática, paulista, com uma risada alta. Só essas peculiaridades já me puxaram. Então percebi que ela tinha as mãos mais bonitas que já vi em toda minha vida. Com unhas pintadas de preto (isso me mata) e algum desenho nas mesmas que não pude identificar, mas irrelevante. Deus! São as mãos mais perfeitas já concebidas pela natureza. Era arte, era o arquétipo do que existia de mais perfeito no quesito mãos. Fiquei meio atarantado, porém me distraí do devaneio e logo me foquei novamente na venda. Experimentou uma saia. Deixou-me ver. Podia ver suas canelas. Pensei se ela teria os pés tão perfeitos quanto as mãos, no entanto, calçava meias. Conversa vai, conversa vem, ela me disse que ia à Neo. Acredito em coincidências? Perguntei se ela conhecia certa amiga minha. Reagiu com sua risada característica que me induzia ao hipnotismo. “É com ela que sairei hoje...” disse a paulista. Levando uma vida de cigano desde que nasci, instável, colecionando endereços, ampliando horizontes, expandindo-me, ramificando-me, conhecendo todo tipo de visão, convivendo em amálgama, ainda paro e me pergunto o quanto o mundo pode ser pequeno. E a que porcentagem gosto de ser surpreendido sempre. Peguei seu Orkut (viva à tecnologia) e ao analisar seu profile, mais uma coincidência(?); mesmos gostos, mesmo sectarismo, mesmo signo, que chegava a parecer deboche. Pára tudo. Deixemos acontecer...

Fim do diário de bordo.

Publicado em 03/09/2006 no site da Void

quarta-feira, setembro 20, 2006

O VETERANO ERRADIO COM FERIDAS DE GUERRA E AMOR-PRÓPRIO

Deveria ir à praia às sete da manhã do dia seguinte, sábado, quando Gef me liga, diz que está com alvará de soltura da mulher e me convida pra dar um rolézinho descompromissado nesta sexta à noite. Havia saído um dia antes, mas não consigo recusar de sair e achei que dar uma volta pela cidade baixa não me custaria.

Passamos no Bells, entro, dou uma olhada e de soslaio avisto a garota que foi o grande amor da minha vida (por enquanto). Dissimulei que não a vi e saí fora. Não suporto fazer descaso e combato com mão-de-ferro todos os defeitos fodidos do meu caráter, mas escorpiano é uma sumidade no assunto, insidioso por natureza e quando menos espero, cometo essas malditas baldeações. Me deparei com um teste surpresa e rodei. O que houve? Acontece que já superei essa fase, mas não adianta, na vida sempre haverá aquela pessoa que será inesquecível, por mais curado que se esteja, cicatrizes são pra sempre, boas ou ruins, externas ou internas.

Por que agi assim se isso já não me abalava? Como pude ser hipócrita? Vulnerável? Não sou assim! Ela me deu o pé na bunda, mas nunca tive dor de cotovelo ou rancor por causa disso, mas então por que não agi naturalmente? Como fui fraco! A verdade é que eu vi que ela me viu. E vi também que seus olhos brilharam. Foi nítido. Isso que me desconcertou. Não esperava que ela tivesse essa reação. Não tive medo dela. Tive medo de mim. Do que poderia vir a acontecer se minha atitude fosse expansiva. Conheço-a perfeitamente e inúmeros ramais haveriam se eu tivesse sido receptivo. Esse foi meu maior temor. Se ela se portasse com desdém para comigo, penso que seria até melhor, por mais doído que fosse. Fui pego desarmado e de surpresa. Fui fraco porque tive medo de ser fraco, de não confiar em mim, sou instável, inconseqüente e imprevisível, natural que, às vezes, fique receoso, ainda mais por ser homem, quase todos somos cachorros vira-latas, basta elas fazerem “tsc, tsc” que já estamos abanando o rabinho, mas sempre tive convicção, firmeza de valores, elegância, postura e, principalmente, confiança no meu taco. Porém, droga, por que ela tinha que mexer no cabelo, arquear a sobrancelha, levantar o canto da boca e me fitar os olhos?!? Sei que disfarcei perfeitamente e ela não notou que a vi, contudo, não me cairiam as pernas se andasse em sua direção e fosse cordial, o que qualquer pessoa digna faria. Aliás, ela ia embora pra Europa! Que diabos está fazendo aqui ainda?!

Enfim, não me prostrei (ahh, nãããão, capaz...) e Gef e eu seguimos para o Ossip. Estava meia-boca. Não queria me estender, no entanto, Gef me pilhou para irmos à Neo, pois havia uma concentração lá quando passamos anteriormente. Topei. Entramos. Uma bosta. Senti que minha nota de dez reais criara asas e saiu voando. Agora azar. Ficamos ali curtindo o que dava, de qualquer forma. Algum tempo se passou, uma garota me pegou pelo braço e me apontou sua amiga. Falei “manda ela vir aqui falar comigo”. Se a montanha não vai até Maomé... Acabou eu indo. Demos uma volta pelo pico e rolou. Dancei apertado e ela me deixou tarado. Peguei contatos, Gef e eu vazamos.

Àquela altura já não conseguia mais dizer não e Gef me convenceu a ir para uma rave. Topei. Entramos. Outra bosta. Outra nota de dez voando. Encontrei um conhecido que me ofertou drogas. Não tinha mais grana e ofereci um anel de prata que usava, mas não serviu nele, talvez o relógio, pensei – PÔRRA, quê que eu to fazendo?! Não era só um rolézinho? A coisa está fugindo do controle. Resolvi me orientar e dei um tempo. Já eram oito horas...

Cheguei às nove em casa, fui pra praia e surfei de virada. Chega de emoções fortes por um tempo. Meu livro está cheio de orelhas e acho que preciso de um prendedor. O brabo é saber que esse tipo de marca nunca mais faz a folha voltar a ser como era...

Publicado em 01/08/2006 no site da Void

CENAS DO COTIDIANO

I

Sexta-feira. Aniversário da filhinha de um grande amigo meu, ah, e amiga. Não tinha o que fazer, então fui. Toda galera reunida. As crianças brincam, os adultos bebem e riem. Sempre gratificante encontrar velhos amigos. Comi, bebi e me diverti exacerbadamente. Valeu. Não fosse por um grandalhão bêbado que chegou botando banca. Machuquei um pouco a mão enquanto rolava o espancamento coletivo. Exaltação, sangue, mulheres histéricas, desordem, polícia. Nada de mais.

II

Sábado. Só vagabundeei por aí.

III

Domingo. Meu amigo Gef apareceu pra pegarmos a after duma rave que rolava. Havíamos combinado, contudo não achei que vingaria, enfim, pus qualquer roupa e fui. Sete reais, dinheiro contado, fazer o quê? Sem apêndices, vamos só de bira hoje. Comecei com catuaba. Umas cinco. Talvez sete... Bom, não tenho idéia. Trocando os pés já, sem possibilidade de dialogar. Auê sobre um casal que caíra do poço, fosso, sei lá, do elevador. Festa encerrada. Bombeiros, ambulância, Romeu e Julieta será? Peguei uma ceva e vazamos.

IV

Cidade baixa. Ceva, vinho, refrigerante. Não sei que bar era, mas só tinham lésbicas e gays. Conhecemos duas minas de Sapucaia, eram gente fina. Um magro perguntou se Gef e eu éramos heteros. Confirmamos, então disse que nos apresentaria duas amigas. Não sei se eram as duas sapucaienses que mencionei, não lembro bem.

V

Apagão de memória. Estava na sarjeta. Gef falando “levanta aí, meu!” “Chama a ambulância que eu vou morrer” eu dizia. Não ia nada! Só estava de porre! De novo. Duas garotas, gatas, passam e conversam com Gef: “teu amigo tá pior que eu...” diz uma delas. Ambas se beijam e ralam peito. “Pô, meu, vamo lá, ta cheio de mina, cara!” insiste Gef. Sem condições. Umas vomitadas. Só líquido. Gef disse que era roxo. Sentado numa mesinha na parte de fora de um restaurante, vomito mais um pouco e peço que Gef me compre uma água. Na hora de levantar, caio da cadeira e derrubo a mesa junto. Os garçons surgem, assustados, “estão achando que estão em casa...” Só consigo lembrar da expressão na cara deles, mais nada. Vamos embora.

VI

Casa. Soluço. Abraço no vaso. Chuveiro. Ressaca. Pôrra, uma semana e a mão ainda dói! Hoje tem festa de novo.

Publicado em 12/07/2006 no site da Void

BEM-VINDO AO INFERNO - PARTE 2




Fé é crer naquilo que não se pode ver ou provar. Por mais caótico ou "advogado do diabo" que eu possa parecer, há de convir que a fé não salvará este país porque o fungo está visível nos esgotos e alastrando-se bueiro a fora. Em uma coluna recente do jornalista Arnaldo Jabor, ele ponderava exatamente isso. Já viram o PCC? O CV? Perceberam o quão organizado está o crime organizado? Se nós estamos rumando pra merda, eles já trabalham dentro dela, se temos medo, eles não temem nem a morte, pois não tem nada a perder. A multinacional do pó não obedece leis, não paga impostos, sobretudo, conta milhões de dólares de presidiários como o Beira Mar, transformando as prisões em hotéis cinco estrelas, com soldados do tráfico nascidos na periferia - o próprio inferno - onde crescem e logo descobrem que morrer faz parte do cotidiano. Para a reforma, necessitaria bilhões, justo neste país cuja dívida externa é de vinte por cento ao ano e o presidente aumenta os gastos públicos progressivamente. Quantia esta que deveria ser gasta organizadamente por um governante que driblasse os poderes (Legislativo, Judiciário) seculares e ultrapassados e que não contaria nem com o apoio do exército para chegar aos maiorais, pois esse não tem grana nem para o rancho dos recrutas.

Vivemos num lugar onde pessoas com talento não tem espaço para mostrar seu potencial e são obrigados a atuar em áreas de trabalho onde se tornam limitados. A natureza do homem é lutar. Mas para lutar, você tem de ter uma meta, um objetivo pessoal. Porém em um lugar onde não se vê uma luz sequer no fim do túnel fica difícil ter incentivo. Um país corrompido até o talo. Com o miolo estragado. Tudo está comprometido. Devemos ter esperança, fé. Mas a realidade é outra. Para o Brasil, não há mais saída. Como disse, o estrago feito há anos, sem interrupção, sacrificou a máquina toda. Resta a quem não tem oportunidade, fugir. Fugir desta realidade. Beber, entorpecer-se, drogar-se. Algo que te dê um falso prazer neste país de mentira. Nessa ilusão que é pregada pelos políticos em época de eleição. Então você perde sua juventude, seu vigor e aí você, quando se dá conta, é que está comprometido. Essa é uma saída. Criticar, reclamar e contestar dificilmente resolve as coisas, mas é o que posso fazer já que drogar-se não é permitido (como se pudessem nos coibir...). Honestidade é uma palavra que não existe mais no dicionário da política. Foi abolida por não ser mais usada. As leis cada vez mais favorecem os errados. E quem são os errados? Não existe um julgamento universal. Discernimento é um problema mundial. Há pessoas que roubam, traem, matam e são absolvidas. Portanto elas estão certas? Estamos trancados em uma jaula. E quando o carcereiro percebeu que se organizava um motim, jogou a chave fora. Não seja bobo. O "mundo novo" é uma utopia. Mundo melhor é conversa pra boi dormir. Somos peixes em um aquário com água contaminada. Abandonados no limbo. Alguns não merecem essa sina. Contudo, talvez nosso criador ache que ao invés de tirar os anéis, seja melhor jogar o corpo inteiro fora.

A fé move montanhas. Entretanto, as montanhas estão podres. O país está quebrado. É desanimador, desestimulante, mas é verdade. Não quero morrer velho, desgastado por buscar respostas. Prefiro morrer na enfermaria de alcoólatras entre os decadentes e os imprestáveis. Se isso tudo faz de mim um mau cidadão, então sou um mau cidadão. Não busco salvação em desenho ou literatura. Escrevo tão mal quanto qualquer um. Descobri minha voz e a experimento no escuro. Uma voz que sai direto do coração.

Não exagero. Estou sendo coerente. De qualquer forma, não deixo de me divertir. Aliás, e como. Somos governados por palhaços! Posso estar errado e ninguém precisa perder sua religiosidade por isso. Eu acredito em Deus, porém não acho que Ele poderá ajudar o país e o mundo. Não estou sendo cético ou ateísta. Fiéis se questionaram sobre Deus, com a polêmica dúvida do papa Bento XVI, ao pisar no campo de extermínio nazista de Auschwitz, na Polônia, semana passada, quando se perguntou "Onde estava Deus naqueles dias?" Se Deus não apareceu em tragédias como o Holocausto ou na queima de crianças vivas em Hiroshima e Nagasaki, porque viria neste caso? Ninguém precisa perder sua fé por causa disso. O líder espiritual, Dalai Lama, foi capaz de perdoar os atos dos chineses ao destituírem o Tibet. E Deus não apareceu para punir a China. Sabe como triunfaram sobre o povo do Tibet? Mataram tibetanos por prazer. Obrigavam-os a renunciar à sua religião, mataram a tiros, espancados, crucificados, queimados vivos, afogados, submetidos à vivissecção, mortos por inanição, estrangulados, escaldados, enterrados vivos, decapitados. Tudo lentamente, em público, onde familiares das vítimas eram obrigados a assistir e crianças pequenas forçadas a atirar em seus pais. Acho que isso é suficiente para odiá-los, não? E nem assim, Dalai Lama o fez.

A resposta mais contundente sobre o papa veio do rabino Henri Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista: "Deus estava onde sempre esteve, esperando que os homens assumissem o seu dever". Isso reforça o que eu disse sobre sociedade. Que todas as atrocidades são conseqüências das nossas próprias ações. Esperar intervenção externa é ingenuidade ou negligência. Nós estragamos, nós que tentemos concertar agora. Em vão. No entanto, a profecia de estarmos condenados, por mais desastrosa que aparente, é benéfica. O escritor inglês do século XVIII, Samuel Johnson, disse "a perspectiva de ser enforcado na próxima madrugada concentra esplendidamente a mente humana", de modo a nos fazer refletir profundamente sobre uma possível solução. E quem ainda tem esperança e acredita na salvação, peça isso como último pedido ao carrasco quando estiver subindo no cadafalso.

Postado em 05/06/2006 no site da Void

BEM-VINDO AO INFERNO - PARTE 1


Sociedade

Sabem como me apaixonei pela Literatura? Bom, eu não me apaixonei. Sempre fui preguiçoso e não gosto de ler. Eu me identifiquei com ela. Para se jogar nesse ramo, você não precisa necessariamente ser alguém bem sucedido - é, na verdade, só a grana é que faz falta -, contudo, é um espaço que aceita pessoas como eu; fracassados. Me reconheci como um praticante indireto ao notar as características peculiares de certos escritores, aquela veia artística, algo que às vezes abomino, tentei e não consegui me curar. Então passei apenas a exercer.

Infância e adolescência reclusas, nenhuma experiência com drogas, relações públicas. Sexo? Pior ainda. Por isso, ele me fascina e eu escrevo tanto sobre ele. Feio, burro, desleixado, criando mundinhos particulares para tentar se sentir confortável. Também não me deprimia (ia resolver alguma coisa?), me conformava. Por outro lado, procurei ser normal. Foi aí que a coisa complicou. Me agarrei aos esportes e como sempre fui uma negação em Educação Física (não saber jogar futebol elimina você de, no mínimo, nove amigos), descobri minha vocação no surf. Meu hobbie número um era desenhar e agora, o número dois era o surf. Morando na cidade, há 120 km da praia, eis mais um empecilho: A dificuldade de acesso até meu lazer. Socialmente, um falido; profissionalmente, diziam que eu era ótimo, mas não tinha especialização; logo, estava na merda.

Então eu li. Vi um livro interessante que conseguiu prender a minha atenção. Resolvi tentar escrever e quando comecei, descobri que poderia escrever desde a hora que acordo até dormir, sem parar. O que devia fazer agora era ler mais e mais para, mesmo que de brincadeira, fazer a coisa direito e não de forma medíocre. Se antes eu desenhava, encontrara uma maneira nova de exorcizar taras e demônios. Um calcanhar de Aquiles que me fazia sentir um pouco menos estranho e não o único com hábitos resignados. Descobrir-me com esta vocação, confortou-me em situações tidas como incomuns. Ficar pelos cantos, quieto, era esquisito. Se você é artista, é estilo da personalidade. Porém buscar conforto, talvez; esse talvez nunca me passou pela cabeça. Assim como esse conforto. Pois esta não é minha meta. O prazer está em viver desconfortável. Não fui impelido à isso, eu existo à isso. Meu sangue é para isso. Então compreendi. Esse era o meu insight. Tinha de valer-me dos alicerces agora, caso quisesse erguer as paredes e o teto. Eu, que nunca li, me joguei, pernóstico, estuporado e cego no mundo da Literatura. Göete, Nietzsche, Balzac, Dostoiewski. O que me surpreendeu ao ler grandes filósofos e escritores subversivos como Henry Miller, Bukowski, foi que isso só reforçara meu sectarismo, pois eu, sem conhecimento pleno deles, fazia exatamente tudo da maneira como diziam. Fiquei mais desiludido ainda. Eu tinha o dom.

Sempre comedido nas minhas obras, desta vez, estafado por suscetíveis derrotas, foi meu chute no balde, com toda raiva, que eu sempre quis dar. Na Literatura, poderia soltar o verbo (na verdade, não totalmente, mas não ligo mais pra isso) e dane-se as conseqüências. Isso já não me abala. Mostraria toda minha idiossincrasia, sem medo de represália. Estou no inferno, vou ter medo de quê?

Ao invés de repetir, com uma falsa sinceridade, todos os protestos prolixos dos filólogos dessa geração, preferi me despir pra todo mundo ver e, talvez, me deixar ser usado (Uia!) como peça de um quebra-cabeças onde, mesmo que não faça falta à imagem, é necessária para compor a paisagem. Não vou advogar em prol dos meus preconceitos, tentando fazê-los parecerem "liberdades" que a "sociedade" nos veta. Sociedade: Essa palavra é usada de forma equivocada por supostos aspirantes a escritores que teimam enfadonhamente quando insistem em mencioná-la exaustivamente. Podem desconfiar de alguém que pode ser um tipo doente e vulnerável mascarando-se num discurso já declarado. Entenda, sabemos que estamos numa das piores crises da história e as pessoas insistem em jogar a culpa dos problemas no "inimigo", que chamam de igreja, educação, governo, sociedade. Desperdiçam forças para provar que estão "certos" e o outro "errado". Para eles, a sociedade compõe-se predominantemente dos que são contra suas idéias. Esquecem que a sociedade é composta de loucos e criminosos, tanto quanto homens honrados e não-honrados. Que a sociedade representa todos nós. "O que somos e achamos da vida". Esse tipo insidioso de pessoa tenta, mesmo que inconscientemente, defender suas idéias através da demagogia, ainda que admiráveis usuários da Dialética, promovem uma vingança pessoal. Nada contra, acredite, só que eu não quis esse meio.

Acontece que ser transgressor não basta para entrar neste barco. Gritar alto: Foda-se!! País de merda!! Sociedade maldita!! Não, não. Isso é coisa de fanfarrão. Um ser humano de gosto superior tem de experimentar a angústia, o desespero, a vergonha, o pesar, empatia, compaixão, entender a necessidade do silêncio, do isolamento, enfim, o fracasso. No entanto, aí mora o maior erro também. Ser contracultura e não submeter-se a nada é, sem dúvida, uma atitude de brio, contudo, é preciso compreender que nem sempre a exceção é mais digna que a regra. Penetrar no conhecimento, onde se vê folhas e mais folhas das árvores, implica em descer do degrau da intransigência para ver só caules, logo se vê o horizonte. Sacar que a verdade não é necessariamente melhor que a aparência. Qual seria a verdade sob um desenho em uma pintura? Uma obra de arte num quadro? Seu rascunho. Se insistir em achar a origem, terá de abrir e dissipar a tinta, para deparar-se com riscos rústicos e toscos. E aí, meu amigo, será impossível rever a beleza que existia ali.

Pulei neste abismo como um mero diletante. Dizer isso é tão bonito. Todavia, meu gosto pela arte é um vício, não uma paixão. É minha bebida. Me deixa extasiado, porém me mata de ressaca. Entretanto, não tenho pudor nenhum em dizer que meu objetivo ambíguo nesta empreitada é o de um rufião. Isso é uma lição que se aplica a tudo. Alguém crê num relacionamento baseado totalmente na verdade? Não vou dissecar essa hipótese, acho que definitivamente não há necessidade.

Eu já vivi equivocado. É preciso lembrar que grandes artistas da Antigüidade, Da Vinci, Michelângelo (não a tartaruga ninja), produziram muitas de suas maiores obras sob serviço. Devemos nos sujeitar para sobreviver. Isso não tornou a arte renascentista menos bela. Optei por submeter meu ego e minha personalidade ao espírito e usar minha força para servir o mundo. Eu me fodi e quero dizer que foi ali que eu me apaixonei (isso soou meio gay...). Me fascinei pela decadência ao descobrir a evolução que ela nos propõe. Falo de se olhar a escuridão, aprendendo a lidar com ela neste mundo dual. Passei a reger tudo que está fora da luz. Conteúdos que são rejeitados porque se teme a escuridão, assim como tudo que é feio. Deliciei-me com o subterrâneo. Ali podem ser encontradas fossas, ossos enterrados, mas também pedras preciosas e lençóis de águas limpas. A mais ofuscante beleza aonde só a pessoa que chega lá pode saber que existe. Não me importei em mergulhar no mar, absolutamente niilista e longe de qualquer insight. Sem vergonha da minha própria inépcia nesta terreno. Sem contrição por fuçar no lixo e sem medo de, neste jogo, envidar, porém provando para mim mesmo que há tanta honra em agir de modo tão vil quanto dentro das convenções.

Postado em 05/06/2006 no site da Void

ASSIM COMEÇOU TRINITY - PARTE 2

Continuação...

Depois da jornada pela beira da praia, apenas me lembro de já estar lá dentro do Scooba (entenda que não recordo de certos intervalos de tempo. Só flashbacks). Eu estava tontinho, comprei uma água e cada vez que tomava um gole (da água, veja bem), ficava mais tonto (imagine o estadinho da minha figura). Resolvi me sentar sozinho um pouco num murinho há alguns metros do banheiro. Eu estava na linha entre a sobrevivência e a perdição. Se sorvesse mais um gole de álcool, o passo seguinte seria a regurgitação. Isso, sem contar que estava com dor de garganta e tossindo igual a um tuberculoso. Fiquei curtindo minha bebedeira num cantinho.

Sentou uma garota do meu lado. Uma segunda apareceu em pé. De repente, uma terceira e, nem sei mais quantas, me fecharam e puxaram papo.

- Por que tu tá tomando água?
- Porque tomei muita caipira.
- Baaahh! Minha amiga adora caipira!

Apontou pra amiga.

- Puxa! Infelizmente eu não tenho mais caipa.

Conversamos então. Normalmente, não sei como seria se estivesse sóbrio, pois é raro acontecer isso comigo, de garotas me abordarem. Por causa da minha "beleza" que não é exatamente o estilo "Brad Pitt" e muito longe do "Léo diCaprio" ou alguém do naipe. Bom, alguns arquivos de conversa foram perdidos do meu computador craniano e esqueci como surgiu o assunto: uma delas disse que era espanhola e que fazia intercâmbio aqui, que só falava espanhol e tal. Mais tarde, a mesma me revelaria que era uma brincadeira, contudo, no meu aspecto geral, acreditaria até em duende, se me falassem que viram um (aliás, achamos que foi um que sumiu com nosso raspador de parafina). De repente desapareceram. Me reencontrei com meus amigos e em alguns flashes de memória, recordo que o clube estava bem vazio. Me deparei mais umas duas vezes com a turma da "espanhola" e puxei conversa com uma delas que disse se chamar Anna. Ela era simpática e uma fofinha. Não resisti e tasquei um beijo. Fiquei com ela. Neste tempo, lembro que deixei cair várias vezes e quase perdi meu boné, meu moletom e a jaqueta dela, gradativamente. Highlander bebeu mais da conta (como sempre) e teve de deixar sua identidade no Scooba. Não que precisasse, uma vez que ele conhece todos os seguranças lá. E mesmo que não conhecesse, acho difícil que conseguissem inibi-lo... Meus amigos me avisaram que iriam embora. Argumentei que ficaria com a gatinha mais um pouco, mesmo sem ter certeza nenhuma se sabia o caminho de volta e se na minha situação orgânica, teria condições.

Voltei sozinho depois e não encontrei nenhuma alma, criatura ou artefato que se movesse em todo o percurso. Ah, na verdade, vi só um tiozinho de bicicleta que devia estar pescando na madrugada. Não sendo suficiente enfiar o pé na jaca durante a noite, enfiei o tênis inteiro numa poça naqueles canalzinhos de água que seguem para o mar. Apesar disso, deu tudo certo.

Acordei perto do meio-dia com uma ressaquinha trivial, quase sem voz e com o Highlander dando o "wake up call". Preferi ignorar a ressaca e as amígdalas para aproveitar o dia, que estava perfeito; sol, sem o vento nordeste - que denominamos de "aquele que não pode ser mencionado" porque, quando estamos na praia, ele surge quase sempre e supúnhamos que pode ser uma maldição. Nesse caso, melhor não dizer seu nome (eu falei que só saia besteira dessas trips...) - e o mar alinhado, beirando o clássico.

Varamos e desta vez, conseguimos pegar ondas muito boas. Deu até pra acertar algumas manobras. Estava meio buraco, com um drop despencando, mas no máximo um metrinho, então dava pra se atirar sem medo. Embora o High tenha tomado umas vacas cabulosas. Sem contar a saideira, em que rabeei ele na onda. Mas não foi minha intenção. Como estava um drop rápido, não dava para eu voltar atrás, então acelerei e saí fora, entretanto, High já botara sua prancha reta para sair do mar. Contudo, por ainda estarmos meio grogues, pode-se dizer que nos saímos bem.

Como andávamos racionando comida havia algum tempo, optamos, após o surf, fazer um rango arrasa-quarteirão. Enquanto assistíamos TV, lembro que na extinta Guaíba, passava um Western (novidade isso...). Notei que era o primeiro filme da saga de Bud Spencer e Terence Hill intitulado Assim começou Trinity. Um épico do Bangue-Bangue. Durante o cozimento do rango, tive suscetíveis derrotas no xadrez e não consegui mais ganhar de ninguém. Cheguei a perder uma partida pro High em cinco minutos. Bem, meu subterfúgio é que meus neurônios estavam exauridos pelo álcool... Decidi ficar em companhia do velho safado (Êpa!), Bukowski. O gourmet Highlander serviu a janta e comemos como condenados. Ainda achei um Nietzsche no quarto e pedi emprestado ao High - não podia acabar melhor meu fim de semana. O Ricky passou e nos deu carona de volta. Terminei o fíndi sem voz, tossindo escarrado que nem velho ébrio em saguão de hospital, comecei a semana com meu relógio interno desregulado e sem grana, mas a dor de garganta passou. Fiquei fodido? Não, fiquei feliz. Vou folgar um final de semana e depois faço tudo de novo.

*Alguns nomes foram trocados.

Postado em 16/05/2006 no site da Void

ASSIM COMEÇOU TRINITY - PARTE 1

"(...) o que temos para contar não é tão importante quanto o ato de contar em si."
-Henry Miller-

Passei o dia das mães no Scooba. Mas isso é só a ponta do iceberg.
Meu amigo, Highlander (explicar esse apelido levaria um livro inteiro. Para o leitor não ficar tão perdido, saiba só que ele já escapou de situações dignas de um highlander) convidou a mim e a meu irmão para passarmos o fím de semana na praia. Fazia semanas, eu andava enclausurado e que não surfava, então topei. Ganhamos carona de um outro amigo, chamado Ricky, que nos deixou na praia de Presidente, onde High tem casa.

Sábado pela manhã, tomamos café, fizemos um chimarrão e caímos no mar, meu irmão - o Biriba -, High e eu. Biriba e eu só passamos perrengue (fora do rip é foda) e o High conseguiu pegar umas ondas. Tinha um metro de onda bem servido. Apanhei que nem fanático na torcida rival. Depois do banho matinal, Biriba e High se digladiaram jogando xadrez. Eu me distraí com um Bukowski fresquinho que comprara no dia anterior em uma feira do livro na nossa cidade, Esteio. Fomos então olhar o mar e neste meio tempo passamos numas amigas do Highlander - as duas muito simpáticas, por sinal - que disseram estar indo ver o campeonato de surf que estava rolando em Tramandaí. Convidamos ambas para queimar um antes, na casa do High. Disseram que também iam ao Scooba e nisso, confirmamos nossa participação. Nos despedimos e dirigimo-nos ao banho. Desta vez, consegui pegar uma direita de um metrinho muito boa que abriu e se manteve constante. High pegou umas ondas boas e creio que meu irmão também se criou.

Na volta, deixei meu livro um pouco de lado e resolvi interagir no xadrez. Ganhei do meu irmão e posteriormente, do High. Alegaram que eu os matei no cansaço, pois eu demorava muito pra jogar. E desde quando tem que ter pressa para jogar xadrez? Não sou enxadrista profissional! Mas admito que talvez tenham me subestimado. Todavia, começamos os preparativos para a noite, que consistia em uma garrafa de Velho Barreiro - que chamávamos carinhosamente de velho "guerreiro" (e que pertinente esse comentário...) - que viraria caipira, disposição para ir a pé, pois poderíamos não encontrar carona, e "samplers" compostos geralmente pelo High (a gente sempre se fala cantando, é incrível quando nós nos juntamos, não se consegue falar sério). Pelo amor de Deus, quanta cultura inútil...

Seguimos tomando a cachaça e paramos na casa das gurias para fazer um "aquecimento". Lá, encontramos mais vários amigos do High, que haviam participado do campeonato de surf. Bebemos, fumamos e conversamos sobre o evento. Àquela altura, eu já estava num estado medonho. Não descolamos carona e pela escassez das alternativas, nos restou partir a pé. Prepararíamos uma quantidade de caipira para a viagem e eu fui designado para a produção, em virtude do bom trabalho feito na dose anterior (devia ter feito a caipa ruim pra me livrar da tarefa). Queria poder explicar a situação mental que estávamos, porém eu mal me lembro, pra se ter noção. Resolvemos cortar uma garrafa de plástico para levar o combustível. Highlander procurava:

- Putz, esta garrafa não serve.
-Vamos ver... Ó, tem uma boa aqui, de água mineral - respondi
-Dá aqui que eu vou cortá-la com a faca.

Fiquei meio preocupado:

- Será que as gurias não vão precisar da garrafa?
- Se fudê!

Virei para pegar a caipa e ouvi "tling-tling!" Quando estamos juntos com High, tudo que é insólito acontece. Olhei pra ele.

- Olha aqui. - disse ele olhando pra mim.
- Cara, tu quebrou a faca!

Ele estava só com o cabo da faca na mão. Eu, tão louco de bira, desatei a rir. O High, corpulento e com um currículo de brigas bem farto (não que ele seja mal-encarado, na verdade, parece mais uma criança de nove anos. Só tem um gênio meio difícil), parece, às vezes, não dominar a própria força. Sobretudo, ainda não consegui compreender de que maneira ele conseguiu quebrar a lâmina da faca cortando uma garrafa plástica! Déia, a dona da casa, dizia:

- Gente, vocês acreditam que ele conseguiu quebrar a faca?

E expunha o resto do talher para quem não levasse fé. Ela, tranqüila, mas igualmente espantada pela peripécia. E eu me retorcendo que nem minhoca de tanto rir.

Continuamos a viagem. Mais singular que o incidente da faca, só o mar. As ondas estavam brilhando. Brilhando de verdade. Demoramos para perceber que como era lua cheia e as ondas estavam lisas, a luz do luar refletia na parede de água salgada como num espelho de prata polida. E, a julgar pelo nosso entorpecimento, foi ainda mais mágico, pois pareciam raios de energia azulados no momento que as ondas quebravam. Cheguei a pensar que fosse o plâncton que, às vezes, causa esse efeito. Bêbados e emocionados, Highlander e eu agradecemos a Deus aquele momento e a oportunidade de casualmente estarmos sem carro nessa ocasião e sermos os poucos, talvez únicos naquela noite, privilegiados por contemplar aquele fenômeno da natureza.

Continua...

Postado em 16/05/2006 no site da Void

O SER IMPERFEITO - PARTE 2


Continuação

Algumas linhas depois, voltamos para o Babilônia. No caminho eu brincava com Vegita; "você sempre me leva para o mau caminho". E rimos bastante. É uma referência que fiz ao gênio de Vegita, pois ele sempre foi explosivo. Mestre faixa preta em Hapkidô e mais um sem-número de artes marciais, Vegita era conhecido por suas "trêtas" cinematográficas em que geralmente levava vantagem, não importando o tamanho do adversário. Sempre disposto a abraçar a mínima bronca pelos amigos.

Entrando no bar, no maior agito, meu irmão já estava lá dentro. Eu estava mais eufórico ainda do que antes, porém meio travado. Mas me sentindo muito bem. Vegita estava mais à frente e lembro que, quando chegamos na copa, onde avistamos meu irmão, Vegita rapidamente contou que eu havia cheirado. Demos risada. Em poucos minutos, eu, elétrico, contudo dizendo uma palavra a cada minuto e às pronunciando em menos de um segundo, fui abordado por uma garota de Atlântida Sul. Notei também que ela estava acompanhada de uma outra menina do qual estava flertando havia alguns dias na minha praia. Bulma, a garota que me abordou, perguntou: "Você queima um?" Eu, mais que ligeiro sacando toda a jogada e mesmo que não fumasse, disse "Claro". Vi que Chichi, a amiga dela, ria meio encabulada. Devia estar pensando: "Nossa, Bulma, não precisava ser tão direta". Saímos para fora do bar. O movimento era total, pois quem freqüentou, lembra que o quiosque era grande, mas não tanto. A mesma quantidade de gente que ficava dentro do bar havia em dobro pelas areias da praia com pessoas dançando, conversando e fazendo de tudo. Um ambiente parecido até com uma rave, embora naquela época, recordo que isso fosse tão pouco difundido que a maioria nunca tivera ouvido falar. Nos pusemos sentados os três em uma duna e começamos a fumar. Eu, fumando muito mal, já que não sabia tragar nem cigarro, pois nunca havia posto um na boca, sabia que a maconha era só uma evasiva para eu ficar com a Chichi. Não deu muito tempo e Bulma, que era inquieta, falou que ia nos deixar um pouco mais à vontade. E imediatamente se afastou. Fiquei trovando com a amiga dela, vi que ela estava na minha, entretanto também percebi que ia demorar um pouco. Conversa vai, conversa vem, eu ataquei e peguei. Aquela noite foi apenas beijos. E marcou a minha entrada no mundo da experimentação. Com esta mesma garota, ainda experimentaria outras drogas algum tempo depois. A vida é engraçada, é surpreendente, imprevisível e irônica. Bulma, em outra ocasião, revelou que gostaria que eu a apresentasse ao meu irmão. Eu e Chichi apenas ficamos algum tempo e meu irmão praticamente casou para, em seguida, divorciar-se com Bulma e desta união caótica e atarantada deu resultado a um filho.

O Bar Babilônia, devido a situar-se em frente a uma área com muitos aristocratas, acabou sendo fechado pela acusação de vender bebidas alcoólicas para menores, aumento dos Cloroformes Fecais na areia por causa das necessidades fisiológicas feitas pelos freqüentadores em qualquer lugar e som alto. Pequenas ratoeiras arapucadas pelos nobres. Foi essa a versão que eu soube.

Lembro que ficava apavorado com o comportamento dos meus amigos. Sempre na "corda bamba", no "fio da navalha". Eu ainda teria usado cocaína algumas vezes mais, mas paradoxalmente eu sempre patenteei a geração saúde. Do grupo, eu era sempre o que não usava nada. Acho que vício em qualquer droga ilícita ou mesmo legalizada, como cigarro e álcool depende da cabeça de cada um. Tornar-se dependente de algo, por mais químico que seja, penso que depende do organismo. Mas isso também tem a ver com descontrole. Usei várias vezes cocaína e nunca me tornei viciado. Quando não estava a fim, recusava. Até mesmo quando me oferecido de graça. Engraçado como, para meus amigos, eu sempre representei o arquétipo do ser humano puro. Em uma ocasião, Yamcha, Trunks e Tenshinhan iam cheirar e eu disse que também faria. Tenchinhan até então, não sabia que eu já tinha usado e exclamou "Pôxa, até tu?" Ele estava sorrindo como quem estivesse feliz por eu entrar para o clube, mas ao mesmo tempo escorreu uma lágrima do olho dele, como se descobrisse que não existia mais alguém perfeito. "Você era a salvação da humanidade", argumentou. Foi hilário.

Eu, que convivia naturalmente com a maconha e nunca havia usado, em uma noite, a usei, acompanhada de farinha, bebidas e posteriormente outras coisas. Como disse, uma coisa leva à outra. É um caminho perigoso. Onde é fácil perder o controle, simplesmente por esquecer onde fica a linha do limite.

Postado em 10/05/2006 no site da Void

O SER IMPERFEITO - PARTE 1

Lembro que durante uns dois ou três anos, meus amigos e eu nos reuníamos religiosamente no bar Babilônia, em Rainha do Mar. Veraneávamos na, não muito distante Atântida Sul. Às vezes, íamos a pé, o que tornava tudo mais astral. Eu estava no auge da minha adolescência, curtindo todas as novas experimentações da puberdade. Naquela noite não foi diferente.

O Babilônia, pra quem não sabe, era um quiosque bem estruturado - na verdade, não tanto, já que certa vez o chão ruiu na pista de dança devido à pulos exaltados das pessoas, mas nada grave - e situado na beira da praia. Mais precisamente na areia. A praia vizinha, como disse, era Atlântida Sul, onde durante o dia flertávamos com as garotas e torcíamos para encontrá-las à noite no bar. Era matematicamente certo que acontecia, pois todos freqüentavam o Babilônia.

Quando você entra numa aventura, uma série de acontecimentos é desencadeada a seguir. É assim que a arte imita a vida. Uma história só pode ser contada por quem presencia a vida e os casos insólitos que se sucedem freneticamente, naturalmente ou com sorte ou azar. Às vezes você tem um dia monótono e no outro, tudo acontece sem intervalo comercial.

Eu estava chegando no Babilônia e podia sentir a vibração e energia daquela noite. Uma noite banal, rotineira na verdade, mas quando um lugar está cheio de adolescentes como eu era, fica impossível não se contagiar com a euforia. Era um lugar aberto, com entrada franca. Logo fomos descendo dos carros, que casualmente usamos naquela noite e avistei meu amigo Vegita movimentando-se de um carro para o outro combinando algo. O abordei e ele disse para esperar um pouco. Vi que estava tratando alguma coisa com meus outros amigos, Kuririn e Piccolo. Vide que Vegita. Kuririn e Piccolo eram todos adultos e eu um garoto. Experientes e um sangue-novo. observei, meio ingênuo, e percebi do que se tratava. Disse então: "Vegita, vocês vão fazer isso?", com um sorriso de quem estava achando engraçado, mas surpreso ao mesmo tempo. Ele me olhou de volta, com o mesmo sorriso malicioso que o meu e falou: "Vou. Quer fazer?" Ele, com a mesma vileza, mas uma certa insegurança de não saber se estava fazendo a coisa certa. Eu, impulsivo e paralisado ao mesmo tempo, que nem maconha havia experimentado (não por falta de oportunidade, porque sempre convivi com a erva) por simples desinteresse, demorei exatos dois segundos para responder. lembro destes singelos dois segundos tão claros na minha mente que naquela ocasião, devo ter acionado um emaranhado de pensamentos. "Vamos", respondi.

Eles eram vividos e muito meus amigos. Morávamos na mesma cidade e como foram amigos do meu irmão mais velho antes de mim, já os conhecia desde pequeno. Por isso, não fiquei apreensivo, pois são até hoje, pessoas do bem. Adoidados e insanos como eu, mas do bem. Enfim, uma legítima tribo do surf. Não estava nem um pouco com medo, apenas meio adrenalizado pela curiosidade de vivenciar algo tão "encantado" como os personagens de filmes que eu assistia usarem a "branca".

Embarquei no carro do Kuririn, este era, posso dizer assim, o mais favorecido financeiramente. Lembro que estava com o carro do seu pai, porém não recordo qual era, só que era um modelo hidramático. Tomamos o rumo de volta à praia de Atlântida Sul, para procurar uma ruela mais deserta pra darmos os técos. O que era fácil, já que naquela época, havia inúmeras partes desabitadas na prainha. No caminho, vimos um casal na calçada se beijando. Vegita, com seu senso de humor ácido e progenitor de muitas frases de efeito, disse: "Olha aquele chinelão. Provavelmente pegando uma puta. É a vida." Piccolo ripostou: "Bah, hoje tu tá impossível".

Encontramos uma ruazinha e estacionamos. Naquela área da praia, estava uma escuridão total. Não me preocupava com assaltos ou coisas assim, porque aquela praia era como minha segunda casa, onde minha família possuía um quiosque também na beira da praia como o Babilônia, no entanto, menor. E eu conhecia quase todo mundo. Embora isso não nos isentava do perigo ou da própria polícia que às vezes circulava pelas bandas e certamente acharia estranho um carro ultra-moderno com a luz do painel acesa, parado numa zona deserta. Ao som de The End do The Doors (ótima pedida para a ocasião...), Piccolo pegou uma caixa de CD e um cartão de crédito e começou a separar as linhas com a naturalidade de quem ia fumar um cigarro. Vegita disse, apontando para mim: "Ele nunca cheirou". Piccolo retrucou: "É a sua primeira vez?" Eu respondi que sim. Ele dissertou rapidamente sobre os efeitos com a mesma serenidade de sempre. Kuririn também. Fiz meu canudo com uma nota de dinheiro e mandei o pó pra dentro do nariz.

continua...

Postado em 05/05/2006 no site da Void

REFLEXÕES - PARTE 2

Escrever me consome como qualquer atividade grandemente prazerosa. Igual sexo. Cansa não só pelo esforço biológico, mas também pela energia inerente de um ato divino. No coito, se emprega uma energia que gera um outro ser humano. Imagine quão poderosa a energia a ponto de compor uma nova criatura. Este é o meu sentimento como artista (putz! Já estou referindo-se a mim como artista...). Escrever, para mim, não é como redigir um telegrama. Algo que uma máquina pode ser capaz de fazer. Simplesmente passar uma mensagem mecanicamente. Muito menos um exercício. Escrever, pra mim, é pintar uma obra de arte. É gastar uma energia que não adquiro com carboidratos ou alimentos que acho no supermercado. É uma energia que se cria sozinha, nutrida não com substâncias convencionais. O alimento é a inspiração.

Sinto o mesmo quando desenho. É uma atividade escrava do qual não consigo viver sem. Como um workaholic que não tem temperança. Quando termino um desenho é incrível o que vivencio. Devido à minha obsessão pelo perfeccionismo, passo dias, semanas, debruçado (Opa!) sobre a mesa e então termino e vou me olhar no espelho. Me deparo com alguém que não via, às vezes, há um mês ou mais. Um sujeito com o cabelo diferente, barbudo, magro, pálido. Porém, com um ar de quem veio de uma batalha que saiu vitorioso. Uma face judiada, mas maravilhada. Debilitado, mas com um sorriso contagiante na cara anêmica. Com as mãos sujas de tinta como um guerreiro com as mesmas sujas de sangue. Ou como um parto. Ou ainda, uma fera absolutamente extasiada por ter duelado com seu algoz, vencido e conquistado sua fêmea. Plenamente feliz por estar junto dela agora.

A arte me consome por ser o cerne na minha vida. Tanto desenhar como escrever ou outra arte que eu faça são impelidas sempre pelo meu estado de nervos. Quando releio um texto meu, algum tempo depois de passado o estado de espírito ao qual me encontrava, tenho tendência de me arrepender. Por me expor em demasia ou ser muito emotivo. É que procuro produzi-los sempre quando estou com os nervos à flor-da-pele. Para passar exatamente aquilo que eu sentia no momento. Com a cabeça quente. Toda aquela energia transposta no papel. Posso criar arte por trabalho, mas é heterogêneo. Sou meio ciclotímico, se deixar a poeira baixar, minha arte pode ser abortada. O momento não pode ser desperdiçado. Quem é artista (putz! Ó eu de novo. Não sou artista. Sou indefinível. Mas os sintomas são semelhantes), sabe que a inspiração aparece em qualquer lugar e onde menos se espera. Como disse, posso passar tempos sem nada que me venha à cabeça e de repente, uma "fome" surge e preciso me dirigir a uma mesa, sem saber quanto tempo passarei ali deste momento em diante. Conforme um código morse mandado por uma força superior. Sou só o aparelho. Minha função seria transmitir a mensagem de uma forma abstrata para a forma humana pragmática sem eu, e possivelmente ninguém, nunca entender o significado. Como um entregador. Onde sempre fico com a entrega e não sei o que fazer com ela. Sou um carteiro sem nenhum endereço e nenhum remetente. E as cartas nunca param de chegar. Pareço um peão masoquista que não consegue viver sem o seu trabalho escravo e prazeroso.

Publicado em 27/04/2006 no site da Void

REFLEXÕES - PARTE 1

O livro A Sabedoria do Coração de Henry Miller foi o livro que matou o eu alienado e abriu minha mente.

Na verdade, eu já vinha expandindo meus horizontes de uma maneira generosa. Mas eu estava pernóstico. Miller me mostrou a direção. Metaforicamente, porque ele me abriu os olhos, mostrando que não há uma direção a se seguir. Ele me mostrou que devo desafiar as convenções em nome da minha integridade. Traduzir minhas verdades pessoais não com apenas um modo de arte e não precisar seguir nenhum padrão. Algo que logo me identifiquei. A Sabedoria do Coração tornou-se como um oráculo para mim. Me segurou como uma experiente prostituta que te dá uma chave de pernas. Devorei-o como nunca fiz com nenhum outro livro. Não senti como se ele estivesse falando comigo. Me senti assustadoramente como se já soubesse de tudo, mas nunca tivesse tido a coragem de expor e de repente estava ali eu falando comigo mesmo. A forma idêntica do meu ser e da maneira como sempre escrevi, mas achava que não seria correto fazê-lo. Mais um paradigma imbecil que eu havia guardado com um cadeado, achando que nunca seria possível transcender para o mundo real.

Eu acabara de ler Minha Terra, Meu Povo do Dalai Lama, que mencionava (em segundo plano) as virtudes do Budismo, ao qual estava tentando assimilar, porém sinceramente, não estava engolindo. Nada contra, admiro até, sou um leigo nesta religião e ainda pretendo fazer um périplo nessa doutrina, todavia, no momento, não estava me convencendo. Depois de ter lido também um livro relativo, então Sabedoria do Coração, encaixou perfeitamente com minhas idéias a teoria de que viver como um frade seria como uma internação em uma clínica psiquiátrica. Funcionaria como uma fuga ante o mundo real. Tentar criar um universo paralelo onde se pudesse viver mais confortavelmente sabendo ser só ilusão. Para mim, seria como ir contra a natureza. Modificar sua essência. O que, na verdade, temos apenas que ser. Não fugir ou se adaptar com um mundo diferente, só andar na mesma sintonia que ele. Claro que o Budismo ramifica-se à muito mais do que isso, é maravilhoso, mas o princípio se assemelha.

Posso estar equivocado, errado. Porém já disse inúmeras vezes que não sou correto. E nem quero ser. O que pode ser o melhor caminho não é obrigatoriamente o melhor caminho para mim. Cada um têm sua lenda pessoal. Eu estou mais para imoral, transgressor. Tenho virtudes e muitos defeitos para consertar. Também sou errante e acho que todos devemos errar. Não quero influenciar ninguém, até porque não sou um bom exemplo. É só minha visão. Meus textos são obras como meus desenhos. Como um quadro ou uma pintura. Você pode olhar, passar reto, admirar minha visão, repudiá-la, concordar, simpatizar, entendê-la ou achar uma merda mesmo e jogar fora.

Henry Miller foi um artista. Ele sabia disso. Eu não gosto de me intitular ou me definir como ele fazia. Tenho receio quando as pessoas te aplicam à algum grupo. Isso é chavão e repito que não simpatizo com clichês. Não nego que nasci com o dom de artista, algo que sempre ficou explícito para todos meus circunstantes, mas não sei se mereço esse rótulo. Às vezes, acho que ser chamado de artista é o maior elogio que eu poderia receber, pois quem é, sabe que tem um "terceiro olho" e vê mais do que as pessoas "comuns". É uma dádiva, um presente de Deus. Mas nem sempre é bem sintetizado no mundo real. Como um ser humano altista, que é um gênio (e eu estou longe de ser gênio), mas também um incompreendido.

Outras vezes, tenho sentimento de esconder meu dom. Como uma criança que faz travessura e fica apreensivo de alguém descobrir, por não possuir discernimento do ato ser certo ou errado.

Mas não me preocupo mais. As pessoas costumam rotular aquilo que não compreendem. Louco, artista. Talvez eu seja. Mas quem pode dizer, com certeza, que eu é que estou errado, só por estar separado da maioria? Poeta, pintor, escritor, músico... Uns fazem sucesso, outros desaparecem no limbo. Sou redundante, prolixo e contraditório. Portanto, não estranhem se no meu próximo texto eu disser que virei monge. Estou constantemente me redescobrindo. Todavia, sou convicto só em uma coisa: alienação não consta no meu dicionário. O resto, pode mudar tudo.

Publicado em 19/04/2006 no site da Void