quarta-feira, setembro 20, 2006

BEM-VINDO AO INFERNO - PARTE 2




Fé é crer naquilo que não se pode ver ou provar. Por mais caótico ou "advogado do diabo" que eu possa parecer, há de convir que a fé não salvará este país porque o fungo está visível nos esgotos e alastrando-se bueiro a fora. Em uma coluna recente do jornalista Arnaldo Jabor, ele ponderava exatamente isso. Já viram o PCC? O CV? Perceberam o quão organizado está o crime organizado? Se nós estamos rumando pra merda, eles já trabalham dentro dela, se temos medo, eles não temem nem a morte, pois não tem nada a perder. A multinacional do pó não obedece leis, não paga impostos, sobretudo, conta milhões de dólares de presidiários como o Beira Mar, transformando as prisões em hotéis cinco estrelas, com soldados do tráfico nascidos na periferia - o próprio inferno - onde crescem e logo descobrem que morrer faz parte do cotidiano. Para a reforma, necessitaria bilhões, justo neste país cuja dívida externa é de vinte por cento ao ano e o presidente aumenta os gastos públicos progressivamente. Quantia esta que deveria ser gasta organizadamente por um governante que driblasse os poderes (Legislativo, Judiciário) seculares e ultrapassados e que não contaria nem com o apoio do exército para chegar aos maiorais, pois esse não tem grana nem para o rancho dos recrutas.

Vivemos num lugar onde pessoas com talento não tem espaço para mostrar seu potencial e são obrigados a atuar em áreas de trabalho onde se tornam limitados. A natureza do homem é lutar. Mas para lutar, você tem de ter uma meta, um objetivo pessoal. Porém em um lugar onde não se vê uma luz sequer no fim do túnel fica difícil ter incentivo. Um país corrompido até o talo. Com o miolo estragado. Tudo está comprometido. Devemos ter esperança, fé. Mas a realidade é outra. Para o Brasil, não há mais saída. Como disse, o estrago feito há anos, sem interrupção, sacrificou a máquina toda. Resta a quem não tem oportunidade, fugir. Fugir desta realidade. Beber, entorpecer-se, drogar-se. Algo que te dê um falso prazer neste país de mentira. Nessa ilusão que é pregada pelos políticos em época de eleição. Então você perde sua juventude, seu vigor e aí você, quando se dá conta, é que está comprometido. Essa é uma saída. Criticar, reclamar e contestar dificilmente resolve as coisas, mas é o que posso fazer já que drogar-se não é permitido (como se pudessem nos coibir...). Honestidade é uma palavra que não existe mais no dicionário da política. Foi abolida por não ser mais usada. As leis cada vez mais favorecem os errados. E quem são os errados? Não existe um julgamento universal. Discernimento é um problema mundial. Há pessoas que roubam, traem, matam e são absolvidas. Portanto elas estão certas? Estamos trancados em uma jaula. E quando o carcereiro percebeu que se organizava um motim, jogou a chave fora. Não seja bobo. O "mundo novo" é uma utopia. Mundo melhor é conversa pra boi dormir. Somos peixes em um aquário com água contaminada. Abandonados no limbo. Alguns não merecem essa sina. Contudo, talvez nosso criador ache que ao invés de tirar os anéis, seja melhor jogar o corpo inteiro fora.

A fé move montanhas. Entretanto, as montanhas estão podres. O país está quebrado. É desanimador, desestimulante, mas é verdade. Não quero morrer velho, desgastado por buscar respostas. Prefiro morrer na enfermaria de alcoólatras entre os decadentes e os imprestáveis. Se isso tudo faz de mim um mau cidadão, então sou um mau cidadão. Não busco salvação em desenho ou literatura. Escrevo tão mal quanto qualquer um. Descobri minha voz e a experimento no escuro. Uma voz que sai direto do coração.

Não exagero. Estou sendo coerente. De qualquer forma, não deixo de me divertir. Aliás, e como. Somos governados por palhaços! Posso estar errado e ninguém precisa perder sua religiosidade por isso. Eu acredito em Deus, porém não acho que Ele poderá ajudar o país e o mundo. Não estou sendo cético ou ateísta. Fiéis se questionaram sobre Deus, com a polêmica dúvida do papa Bento XVI, ao pisar no campo de extermínio nazista de Auschwitz, na Polônia, semana passada, quando se perguntou "Onde estava Deus naqueles dias?" Se Deus não apareceu em tragédias como o Holocausto ou na queima de crianças vivas em Hiroshima e Nagasaki, porque viria neste caso? Ninguém precisa perder sua fé por causa disso. O líder espiritual, Dalai Lama, foi capaz de perdoar os atos dos chineses ao destituírem o Tibet. E Deus não apareceu para punir a China. Sabe como triunfaram sobre o povo do Tibet? Mataram tibetanos por prazer. Obrigavam-os a renunciar à sua religião, mataram a tiros, espancados, crucificados, queimados vivos, afogados, submetidos à vivissecção, mortos por inanição, estrangulados, escaldados, enterrados vivos, decapitados. Tudo lentamente, em público, onde familiares das vítimas eram obrigados a assistir e crianças pequenas forçadas a atirar em seus pais. Acho que isso é suficiente para odiá-los, não? E nem assim, Dalai Lama o fez.

A resposta mais contundente sobre o papa veio do rabino Henri Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista: "Deus estava onde sempre esteve, esperando que os homens assumissem o seu dever". Isso reforça o que eu disse sobre sociedade. Que todas as atrocidades são conseqüências das nossas próprias ações. Esperar intervenção externa é ingenuidade ou negligência. Nós estragamos, nós que tentemos concertar agora. Em vão. No entanto, a profecia de estarmos condenados, por mais desastrosa que aparente, é benéfica. O escritor inglês do século XVIII, Samuel Johnson, disse "a perspectiva de ser enforcado na próxima madrugada concentra esplendidamente a mente humana", de modo a nos fazer refletir profundamente sobre uma possível solução. E quem ainda tem esperança e acredita na salvação, peça isso como último pedido ao carrasco quando estiver subindo no cadafalso.

Postado em 05/06/2006 no site da Void

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