Depois da jornada pela beira da praia, apenas me lembro de já estar lá dentro do Scooba (entenda que não recordo de certos intervalos de tempo. Só flashbacks). Eu estava tontinho, comprei uma água e cada vez que tomava um gole (da água, veja bem), ficava mais tonto (imagine o estadinho da minha figura). Resolvi me sentar sozinho um pouco num murinho há alguns metros do banheiro. Eu estava na linha entre a sobrevivência e a perdição. Se sorvesse mais um gole de álcool, o passo seguinte seria a regurgitação. Isso, sem contar que estava com dor de garganta e tossindo igual a um tuberculoso. Fiquei curtindo minha bebedeira num cantinho.
Sentou uma garota do meu lado. Uma segunda apareceu em pé. De repente, uma terceira e, nem sei mais quantas, me fecharam e puxaram papo.
- Por que tu tá tomando água?
- Porque tomei muita caipira.
- Baaahh! Minha amiga adora caipira!
Apontou pra amiga.
- Puxa! Infelizmente eu não tenho mais caipa.
Conversamos então. Normalmente, não sei como seria se estivesse sóbrio, pois é raro acontecer isso comigo, de garotas me abordarem. Por causa da minha "beleza" que não é exatamente o estilo "Brad Pitt" e muito longe do "Léo diCaprio" ou alguém do naipe. Bom, alguns arquivos de conversa foram perdidos do meu computador craniano e esqueci como surgiu o assunto: uma delas disse que era espanhola e que fazia intercâmbio aqui, que só falava espanhol e tal. Mais tarde, a mesma me revelaria que era uma brincadeira, contudo, no meu aspecto geral, acreditaria até em duende, se me falassem que viram um (aliás, achamos que foi um que sumiu com nosso raspador de parafina). De repente desapareceram. Me reencontrei com meus amigos e em alguns flashes de memória, recordo que o clube estava bem vazio. Me deparei mais umas duas vezes com a turma da "espanhola" e puxei conversa com uma delas que disse se chamar Anna. Ela era simpática e uma fofinha. Não resisti e tasquei um beijo. Fiquei com ela. Neste tempo, lembro que deixei cair várias vezes e quase perdi meu boné, meu moletom e a jaqueta dela, gradativamente. Highlander bebeu mais da conta (como sempre) e teve de deixar sua identidade no Scooba. Não que precisasse, uma vez que ele conhece todos os seguranças lá. E mesmo que não conhecesse, acho difícil que conseguissem inibi-lo... Meus amigos me avisaram que iriam embora. Argumentei que ficaria com a gatinha mais um pouco, mesmo sem ter certeza nenhuma se sabia o caminho de volta e se na minha situação orgânica, teria condições.
Voltei sozinho depois e não encontrei nenhuma alma, criatura ou artefato que se movesse em todo o percurso. Ah, na verdade, vi só um tiozinho de bicicleta que devia estar pescando na madrugada. Não sendo suficiente enfiar o pé na jaca durante a noite, enfiei o tênis inteiro numa poça naqueles canalzinhos de água que seguem para o mar. Apesar disso, deu tudo certo.
Acordei perto do meio-dia com uma ressaquinha trivial, quase sem voz e com o Highlander dando o "wake up call". Preferi ignorar a ressaca e as amígdalas para aproveitar o dia, que estava perfeito; sol, sem o vento nordeste - que denominamos de "aquele que não pode ser mencionado" porque, quando estamos na praia, ele surge quase sempre e supúnhamos que pode ser uma maldição. Nesse caso, melhor não dizer seu nome (eu falei que só saia besteira dessas trips...) - e o mar alinhado, beirando o clássico.
Varamos e desta vez, conseguimos pegar ondas muito boas. Deu até pra acertar algumas manobras. Estava meio buraco, com um drop despencando, mas no máximo um metrinho, então dava pra se atirar sem medo. Embora o High tenha tomado umas vacas cabulosas. Sem contar a saideira, em que rabeei ele na onda. Mas não foi minha intenção. Como estava um drop rápido, não dava para eu voltar atrás, então acelerei e saí fora, entretanto, High já botara sua prancha reta para sair do mar. Contudo, por ainda estarmos meio grogues, pode-se dizer que nos saímos bem.
Como andávamos racionando comida havia algum tempo, optamos, após o surf, fazer um rango arrasa-quarteirão. Enquanto assistíamos TV, lembro que na extinta Guaíba, passava um Western (novidade isso...). Notei que era o primeiro filme da saga de Bud Spencer e Terence Hill intitulado Assim começou Trinity. Um épico do Bangue-Bangue. Durante o cozimento do rango, tive suscetíveis derrotas no xadrez e não consegui mais ganhar de ninguém. Cheguei a perder uma partida pro High em cinco minutos. Bem, meu subterfúgio é que meus neurônios estavam exauridos pelo álcool... Decidi ficar em companhia do velho safado (Êpa!), Bukowski. O gourmet Highlander serviu a janta e comemos como condenados. Ainda achei um Nietzsche no quarto e pedi emprestado ao High - não podia acabar melhor meu fim de semana. O Ricky passou e nos deu carona de volta. Terminei o fíndi sem voz, tossindo escarrado que nem velho ébrio em saguão de hospital, comecei a semana com meu relógio interno desregulado e sem grana, mas a dor de garganta passou. Fiquei fodido? Não, fiquei feliz. Vou folgar um final de semana e depois faço tudo de novo.
*Alguns nomes foram trocados.
Postado em 16/05/2006 no site da Void
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