quarta-feira, setembro 20, 2006

BEM-VINDO AO INFERNO - PARTE 1


Sociedade

Sabem como me apaixonei pela Literatura? Bom, eu não me apaixonei. Sempre fui preguiçoso e não gosto de ler. Eu me identifiquei com ela. Para se jogar nesse ramo, você não precisa necessariamente ser alguém bem sucedido - é, na verdade, só a grana é que faz falta -, contudo, é um espaço que aceita pessoas como eu; fracassados. Me reconheci como um praticante indireto ao notar as características peculiares de certos escritores, aquela veia artística, algo que às vezes abomino, tentei e não consegui me curar. Então passei apenas a exercer.

Infância e adolescência reclusas, nenhuma experiência com drogas, relações públicas. Sexo? Pior ainda. Por isso, ele me fascina e eu escrevo tanto sobre ele. Feio, burro, desleixado, criando mundinhos particulares para tentar se sentir confortável. Também não me deprimia (ia resolver alguma coisa?), me conformava. Por outro lado, procurei ser normal. Foi aí que a coisa complicou. Me agarrei aos esportes e como sempre fui uma negação em Educação Física (não saber jogar futebol elimina você de, no mínimo, nove amigos), descobri minha vocação no surf. Meu hobbie número um era desenhar e agora, o número dois era o surf. Morando na cidade, há 120 km da praia, eis mais um empecilho: A dificuldade de acesso até meu lazer. Socialmente, um falido; profissionalmente, diziam que eu era ótimo, mas não tinha especialização; logo, estava na merda.

Então eu li. Vi um livro interessante que conseguiu prender a minha atenção. Resolvi tentar escrever e quando comecei, descobri que poderia escrever desde a hora que acordo até dormir, sem parar. O que devia fazer agora era ler mais e mais para, mesmo que de brincadeira, fazer a coisa direito e não de forma medíocre. Se antes eu desenhava, encontrara uma maneira nova de exorcizar taras e demônios. Um calcanhar de Aquiles que me fazia sentir um pouco menos estranho e não o único com hábitos resignados. Descobrir-me com esta vocação, confortou-me em situações tidas como incomuns. Ficar pelos cantos, quieto, era esquisito. Se você é artista, é estilo da personalidade. Porém buscar conforto, talvez; esse talvez nunca me passou pela cabeça. Assim como esse conforto. Pois esta não é minha meta. O prazer está em viver desconfortável. Não fui impelido à isso, eu existo à isso. Meu sangue é para isso. Então compreendi. Esse era o meu insight. Tinha de valer-me dos alicerces agora, caso quisesse erguer as paredes e o teto. Eu, que nunca li, me joguei, pernóstico, estuporado e cego no mundo da Literatura. Göete, Nietzsche, Balzac, Dostoiewski. O que me surpreendeu ao ler grandes filósofos e escritores subversivos como Henry Miller, Bukowski, foi que isso só reforçara meu sectarismo, pois eu, sem conhecimento pleno deles, fazia exatamente tudo da maneira como diziam. Fiquei mais desiludido ainda. Eu tinha o dom.

Sempre comedido nas minhas obras, desta vez, estafado por suscetíveis derrotas, foi meu chute no balde, com toda raiva, que eu sempre quis dar. Na Literatura, poderia soltar o verbo (na verdade, não totalmente, mas não ligo mais pra isso) e dane-se as conseqüências. Isso já não me abala. Mostraria toda minha idiossincrasia, sem medo de represália. Estou no inferno, vou ter medo de quê?

Ao invés de repetir, com uma falsa sinceridade, todos os protestos prolixos dos filólogos dessa geração, preferi me despir pra todo mundo ver e, talvez, me deixar ser usado (Uia!) como peça de um quebra-cabeças onde, mesmo que não faça falta à imagem, é necessária para compor a paisagem. Não vou advogar em prol dos meus preconceitos, tentando fazê-los parecerem "liberdades" que a "sociedade" nos veta. Sociedade: Essa palavra é usada de forma equivocada por supostos aspirantes a escritores que teimam enfadonhamente quando insistem em mencioná-la exaustivamente. Podem desconfiar de alguém que pode ser um tipo doente e vulnerável mascarando-se num discurso já declarado. Entenda, sabemos que estamos numa das piores crises da história e as pessoas insistem em jogar a culpa dos problemas no "inimigo", que chamam de igreja, educação, governo, sociedade. Desperdiçam forças para provar que estão "certos" e o outro "errado". Para eles, a sociedade compõe-se predominantemente dos que são contra suas idéias. Esquecem que a sociedade é composta de loucos e criminosos, tanto quanto homens honrados e não-honrados. Que a sociedade representa todos nós. "O que somos e achamos da vida". Esse tipo insidioso de pessoa tenta, mesmo que inconscientemente, defender suas idéias através da demagogia, ainda que admiráveis usuários da Dialética, promovem uma vingança pessoal. Nada contra, acredite, só que eu não quis esse meio.

Acontece que ser transgressor não basta para entrar neste barco. Gritar alto: Foda-se!! País de merda!! Sociedade maldita!! Não, não. Isso é coisa de fanfarrão. Um ser humano de gosto superior tem de experimentar a angústia, o desespero, a vergonha, o pesar, empatia, compaixão, entender a necessidade do silêncio, do isolamento, enfim, o fracasso. No entanto, aí mora o maior erro também. Ser contracultura e não submeter-se a nada é, sem dúvida, uma atitude de brio, contudo, é preciso compreender que nem sempre a exceção é mais digna que a regra. Penetrar no conhecimento, onde se vê folhas e mais folhas das árvores, implica em descer do degrau da intransigência para ver só caules, logo se vê o horizonte. Sacar que a verdade não é necessariamente melhor que a aparência. Qual seria a verdade sob um desenho em uma pintura? Uma obra de arte num quadro? Seu rascunho. Se insistir em achar a origem, terá de abrir e dissipar a tinta, para deparar-se com riscos rústicos e toscos. E aí, meu amigo, será impossível rever a beleza que existia ali.

Pulei neste abismo como um mero diletante. Dizer isso é tão bonito. Todavia, meu gosto pela arte é um vício, não uma paixão. É minha bebida. Me deixa extasiado, porém me mata de ressaca. Entretanto, não tenho pudor nenhum em dizer que meu objetivo ambíguo nesta empreitada é o de um rufião. Isso é uma lição que se aplica a tudo. Alguém crê num relacionamento baseado totalmente na verdade? Não vou dissecar essa hipótese, acho que definitivamente não há necessidade.

Eu já vivi equivocado. É preciso lembrar que grandes artistas da Antigüidade, Da Vinci, Michelângelo (não a tartaruga ninja), produziram muitas de suas maiores obras sob serviço. Devemos nos sujeitar para sobreviver. Isso não tornou a arte renascentista menos bela. Optei por submeter meu ego e minha personalidade ao espírito e usar minha força para servir o mundo. Eu me fodi e quero dizer que foi ali que eu me apaixonei (isso soou meio gay...). Me fascinei pela decadência ao descobrir a evolução que ela nos propõe. Falo de se olhar a escuridão, aprendendo a lidar com ela neste mundo dual. Passei a reger tudo que está fora da luz. Conteúdos que são rejeitados porque se teme a escuridão, assim como tudo que é feio. Deliciei-me com o subterrâneo. Ali podem ser encontradas fossas, ossos enterrados, mas também pedras preciosas e lençóis de águas limpas. A mais ofuscante beleza aonde só a pessoa que chega lá pode saber que existe. Não me importei em mergulhar no mar, absolutamente niilista e longe de qualquer insight. Sem vergonha da minha própria inépcia nesta terreno. Sem contrição por fuçar no lixo e sem medo de, neste jogo, envidar, porém provando para mim mesmo que há tanta honra em agir de modo tão vil quanto dentro das convenções.

Postado em 05/06/2006 no site da Void

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