O livro A Sabedoria do Coração de Henry Miller foi o livro que matou o eu alienado e abriu minha mente.
Na verdade, eu já vinha expandindo meus horizontes de uma maneira generosa. Mas eu estava pernóstico. Miller me mostrou a direção. Metaforicamente, porque ele me abriu os olhos, mostrando que não há uma direção a se seguir. Ele me mostrou que devo desafiar as convenções em nome da minha integridade. Traduzir minhas verdades pessoais não com apenas um modo de arte e não precisar seguir nenhum padrão. Algo que logo me identifiquei. A Sabedoria do Coração tornou-se como um oráculo para mim. Me segurou como uma experiente prostituta que te dá uma chave de pernas. Devorei-o como nunca fiz com nenhum outro livro. Não senti como se ele estivesse falando comigo. Me senti assustadoramente como se já soubesse de tudo, mas nunca tivesse tido a coragem de expor e de repente estava ali eu falando comigo mesmo. A forma idêntica do meu ser e da maneira como sempre escrevi, mas achava que não seria correto fazê-lo. Mais um paradigma imbecil que eu havia guardado com um cadeado, achando que nunca seria possível transcender para o mundo real.
Eu acabara de ler Minha Terra, Meu Povo do Dalai Lama, que mencionava (em segundo plano) as virtudes do Budismo, ao qual estava tentando assimilar, porém sinceramente, não estava engolindo. Nada contra, admiro até, sou um leigo nesta religião e ainda pretendo fazer um périplo nessa doutrina, todavia, no momento, não estava me convencendo. Depois de ter lido também um livro relativo, então Sabedoria do Coração, encaixou perfeitamente com minhas idéias a teoria de que viver como um frade seria como uma internação em uma clínica psiquiátrica. Funcionaria como uma fuga ante o mundo real. Tentar criar um universo paralelo onde se pudesse viver mais confortavelmente sabendo ser só ilusão. Para mim, seria como ir contra a natureza. Modificar sua essência. O que, na verdade, temos apenas que ser. Não fugir ou se adaptar com um mundo diferente, só andar na mesma sintonia que ele. Claro que o Budismo ramifica-se à muito mais do que isso, é maravilhoso, mas o princípio se assemelha.
Posso estar equivocado, errado. Porém já disse inúmeras vezes que não sou correto. E nem quero ser. O que pode ser o melhor caminho não é obrigatoriamente o melhor caminho para mim. Cada um têm sua lenda pessoal. Eu estou mais para imoral, transgressor. Tenho virtudes e muitos defeitos para consertar. Também sou errante e acho que todos devemos errar. Não quero influenciar ninguém, até porque não sou um bom exemplo. É só minha visão. Meus textos são obras como meus desenhos. Como um quadro ou uma pintura. Você pode olhar, passar reto, admirar minha visão, repudiá-la, concordar, simpatizar, entendê-la ou achar uma merda mesmo e jogar fora.
Henry Miller foi um artista. Ele sabia disso. Eu não gosto de me intitular ou me definir como ele fazia. Tenho receio quando as pessoas te aplicam à algum grupo. Isso é chavão e repito que não simpatizo com clichês. Não nego que nasci com o dom de artista, algo que sempre ficou explícito para todos meus circunstantes, mas não sei se mereço esse rótulo. Às vezes, acho que ser chamado de artista é o maior elogio que eu poderia receber, pois quem é, sabe que tem um "terceiro olho" e vê mais do que as pessoas "comuns". É uma dádiva, um presente de Deus. Mas nem sempre é bem sintetizado no mundo real. Como um ser humano altista, que é um gênio (e eu estou longe de ser gênio), mas também um incompreendido.
Outras vezes, tenho sentimento de esconder meu dom. Como uma criança que faz travessura e fica apreensivo de alguém descobrir, por não possuir discernimento do ato ser certo ou errado.
Mas não me preocupo mais. As pessoas costumam rotular aquilo que não compreendem. Louco, artista. Talvez eu seja. Mas quem pode dizer, com certeza, que eu é que estou errado, só por estar separado da maioria? Poeta, pintor, escritor, músico... Uns fazem sucesso, outros desaparecem no limbo. Sou redundante, prolixo e contraditório. Portanto, não estranhem se no meu próximo texto eu disser que virei monge. Estou constantemente me redescobrindo. Todavia, sou convicto só em uma coisa: alienação não consta no meu dicionário. O resto, pode mudar tudo.
Publicado em 19/04/2006 no site da Void
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