quarta-feira, setembro 20, 2006

ASSIM COMEÇOU TRINITY - PARTE 1

"(...) o que temos para contar não é tão importante quanto o ato de contar em si."
-Henry Miller-

Passei o dia das mães no Scooba. Mas isso é só a ponta do iceberg.
Meu amigo, Highlander (explicar esse apelido levaria um livro inteiro. Para o leitor não ficar tão perdido, saiba só que ele já escapou de situações dignas de um highlander) convidou a mim e a meu irmão para passarmos o fím de semana na praia. Fazia semanas, eu andava enclausurado e que não surfava, então topei. Ganhamos carona de um outro amigo, chamado Ricky, que nos deixou na praia de Presidente, onde High tem casa.

Sábado pela manhã, tomamos café, fizemos um chimarrão e caímos no mar, meu irmão - o Biriba -, High e eu. Biriba e eu só passamos perrengue (fora do rip é foda) e o High conseguiu pegar umas ondas. Tinha um metro de onda bem servido. Apanhei que nem fanático na torcida rival. Depois do banho matinal, Biriba e High se digladiaram jogando xadrez. Eu me distraí com um Bukowski fresquinho que comprara no dia anterior em uma feira do livro na nossa cidade, Esteio. Fomos então olhar o mar e neste meio tempo passamos numas amigas do Highlander - as duas muito simpáticas, por sinal - que disseram estar indo ver o campeonato de surf que estava rolando em Tramandaí. Convidamos ambas para queimar um antes, na casa do High. Disseram que também iam ao Scooba e nisso, confirmamos nossa participação. Nos despedimos e dirigimo-nos ao banho. Desta vez, consegui pegar uma direita de um metrinho muito boa que abriu e se manteve constante. High pegou umas ondas boas e creio que meu irmão também se criou.

Na volta, deixei meu livro um pouco de lado e resolvi interagir no xadrez. Ganhei do meu irmão e posteriormente, do High. Alegaram que eu os matei no cansaço, pois eu demorava muito pra jogar. E desde quando tem que ter pressa para jogar xadrez? Não sou enxadrista profissional! Mas admito que talvez tenham me subestimado. Todavia, começamos os preparativos para a noite, que consistia em uma garrafa de Velho Barreiro - que chamávamos carinhosamente de velho "guerreiro" (e que pertinente esse comentário...) - que viraria caipira, disposição para ir a pé, pois poderíamos não encontrar carona, e "samplers" compostos geralmente pelo High (a gente sempre se fala cantando, é incrível quando nós nos juntamos, não se consegue falar sério). Pelo amor de Deus, quanta cultura inútil...

Seguimos tomando a cachaça e paramos na casa das gurias para fazer um "aquecimento". Lá, encontramos mais vários amigos do High, que haviam participado do campeonato de surf. Bebemos, fumamos e conversamos sobre o evento. Àquela altura, eu já estava num estado medonho. Não descolamos carona e pela escassez das alternativas, nos restou partir a pé. Prepararíamos uma quantidade de caipira para a viagem e eu fui designado para a produção, em virtude do bom trabalho feito na dose anterior (devia ter feito a caipa ruim pra me livrar da tarefa). Queria poder explicar a situação mental que estávamos, porém eu mal me lembro, pra se ter noção. Resolvemos cortar uma garrafa de plástico para levar o combustível. Highlander procurava:

- Putz, esta garrafa não serve.
-Vamos ver... Ó, tem uma boa aqui, de água mineral - respondi
-Dá aqui que eu vou cortá-la com a faca.

Fiquei meio preocupado:

- Será que as gurias não vão precisar da garrafa?
- Se fudê!

Virei para pegar a caipa e ouvi "tling-tling!" Quando estamos juntos com High, tudo que é insólito acontece. Olhei pra ele.

- Olha aqui. - disse ele olhando pra mim.
- Cara, tu quebrou a faca!

Ele estava só com o cabo da faca na mão. Eu, tão louco de bira, desatei a rir. O High, corpulento e com um currículo de brigas bem farto (não que ele seja mal-encarado, na verdade, parece mais uma criança de nove anos. Só tem um gênio meio difícil), parece, às vezes, não dominar a própria força. Sobretudo, ainda não consegui compreender de que maneira ele conseguiu quebrar a lâmina da faca cortando uma garrafa plástica! Déia, a dona da casa, dizia:

- Gente, vocês acreditam que ele conseguiu quebrar a faca?

E expunha o resto do talher para quem não levasse fé. Ela, tranqüila, mas igualmente espantada pela peripécia. E eu me retorcendo que nem minhoca de tanto rir.

Continuamos a viagem. Mais singular que o incidente da faca, só o mar. As ondas estavam brilhando. Brilhando de verdade. Demoramos para perceber que como era lua cheia e as ondas estavam lisas, a luz do luar refletia na parede de água salgada como num espelho de prata polida. E, a julgar pelo nosso entorpecimento, foi ainda mais mágico, pois pareciam raios de energia azulados no momento que as ondas quebravam. Cheguei a pensar que fosse o plâncton que, às vezes, causa esse efeito. Bêbados e emocionados, Highlander e eu agradecemos a Deus aquele momento e a oportunidade de casualmente estarmos sem carro nessa ocasião e sermos os poucos, talvez únicos naquela noite, privilegiados por contemplar aquele fenômeno da natureza.

Continua...

Postado em 16/05/2006 no site da Void

Nenhum comentário: