quarta-feira, setembro 20, 2006

O SER IMPERFEITO - PARTE 1

Lembro que durante uns dois ou três anos, meus amigos e eu nos reuníamos religiosamente no bar Babilônia, em Rainha do Mar. Veraneávamos na, não muito distante Atântida Sul. Às vezes, íamos a pé, o que tornava tudo mais astral. Eu estava no auge da minha adolescência, curtindo todas as novas experimentações da puberdade. Naquela noite não foi diferente.

O Babilônia, pra quem não sabe, era um quiosque bem estruturado - na verdade, não tanto, já que certa vez o chão ruiu na pista de dança devido à pulos exaltados das pessoas, mas nada grave - e situado na beira da praia. Mais precisamente na areia. A praia vizinha, como disse, era Atlântida Sul, onde durante o dia flertávamos com as garotas e torcíamos para encontrá-las à noite no bar. Era matematicamente certo que acontecia, pois todos freqüentavam o Babilônia.

Quando você entra numa aventura, uma série de acontecimentos é desencadeada a seguir. É assim que a arte imita a vida. Uma história só pode ser contada por quem presencia a vida e os casos insólitos que se sucedem freneticamente, naturalmente ou com sorte ou azar. Às vezes você tem um dia monótono e no outro, tudo acontece sem intervalo comercial.

Eu estava chegando no Babilônia e podia sentir a vibração e energia daquela noite. Uma noite banal, rotineira na verdade, mas quando um lugar está cheio de adolescentes como eu era, fica impossível não se contagiar com a euforia. Era um lugar aberto, com entrada franca. Logo fomos descendo dos carros, que casualmente usamos naquela noite e avistei meu amigo Vegita movimentando-se de um carro para o outro combinando algo. O abordei e ele disse para esperar um pouco. Vi que estava tratando alguma coisa com meus outros amigos, Kuririn e Piccolo. Vide que Vegita. Kuririn e Piccolo eram todos adultos e eu um garoto. Experientes e um sangue-novo. observei, meio ingênuo, e percebi do que se tratava. Disse então: "Vegita, vocês vão fazer isso?", com um sorriso de quem estava achando engraçado, mas surpreso ao mesmo tempo. Ele me olhou de volta, com o mesmo sorriso malicioso que o meu e falou: "Vou. Quer fazer?" Ele, com a mesma vileza, mas uma certa insegurança de não saber se estava fazendo a coisa certa. Eu, impulsivo e paralisado ao mesmo tempo, que nem maconha havia experimentado (não por falta de oportunidade, porque sempre convivi com a erva) por simples desinteresse, demorei exatos dois segundos para responder. lembro destes singelos dois segundos tão claros na minha mente que naquela ocasião, devo ter acionado um emaranhado de pensamentos. "Vamos", respondi.

Eles eram vividos e muito meus amigos. Morávamos na mesma cidade e como foram amigos do meu irmão mais velho antes de mim, já os conhecia desde pequeno. Por isso, não fiquei apreensivo, pois são até hoje, pessoas do bem. Adoidados e insanos como eu, mas do bem. Enfim, uma legítima tribo do surf. Não estava nem um pouco com medo, apenas meio adrenalizado pela curiosidade de vivenciar algo tão "encantado" como os personagens de filmes que eu assistia usarem a "branca".

Embarquei no carro do Kuririn, este era, posso dizer assim, o mais favorecido financeiramente. Lembro que estava com o carro do seu pai, porém não recordo qual era, só que era um modelo hidramático. Tomamos o rumo de volta à praia de Atlântida Sul, para procurar uma ruela mais deserta pra darmos os técos. O que era fácil, já que naquela época, havia inúmeras partes desabitadas na prainha. No caminho, vimos um casal na calçada se beijando. Vegita, com seu senso de humor ácido e progenitor de muitas frases de efeito, disse: "Olha aquele chinelão. Provavelmente pegando uma puta. É a vida." Piccolo ripostou: "Bah, hoje tu tá impossível".

Encontramos uma ruazinha e estacionamos. Naquela área da praia, estava uma escuridão total. Não me preocupava com assaltos ou coisas assim, porque aquela praia era como minha segunda casa, onde minha família possuía um quiosque também na beira da praia como o Babilônia, no entanto, menor. E eu conhecia quase todo mundo. Embora isso não nos isentava do perigo ou da própria polícia que às vezes circulava pelas bandas e certamente acharia estranho um carro ultra-moderno com a luz do painel acesa, parado numa zona deserta. Ao som de The End do The Doors (ótima pedida para a ocasião...), Piccolo pegou uma caixa de CD e um cartão de crédito e começou a separar as linhas com a naturalidade de quem ia fumar um cigarro. Vegita disse, apontando para mim: "Ele nunca cheirou". Piccolo retrucou: "É a sua primeira vez?" Eu respondi que sim. Ele dissertou rapidamente sobre os efeitos com a mesma serenidade de sempre. Kuririn também. Fiz meu canudo com uma nota de dinheiro e mandei o pó pra dentro do nariz.

continua...

Postado em 05/05/2006 no site da Void

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