quarta-feira, setembro 20, 2006

REFLEXÕES - PARTE 2

Escrever me consome como qualquer atividade grandemente prazerosa. Igual sexo. Cansa não só pelo esforço biológico, mas também pela energia inerente de um ato divino. No coito, se emprega uma energia que gera um outro ser humano. Imagine quão poderosa a energia a ponto de compor uma nova criatura. Este é o meu sentimento como artista (putz! Já estou referindo-se a mim como artista...). Escrever, para mim, não é como redigir um telegrama. Algo que uma máquina pode ser capaz de fazer. Simplesmente passar uma mensagem mecanicamente. Muito menos um exercício. Escrever, pra mim, é pintar uma obra de arte. É gastar uma energia que não adquiro com carboidratos ou alimentos que acho no supermercado. É uma energia que se cria sozinha, nutrida não com substâncias convencionais. O alimento é a inspiração.

Sinto o mesmo quando desenho. É uma atividade escrava do qual não consigo viver sem. Como um workaholic que não tem temperança. Quando termino um desenho é incrível o que vivencio. Devido à minha obsessão pelo perfeccionismo, passo dias, semanas, debruçado (Opa!) sobre a mesa e então termino e vou me olhar no espelho. Me deparo com alguém que não via, às vezes, há um mês ou mais. Um sujeito com o cabelo diferente, barbudo, magro, pálido. Porém, com um ar de quem veio de uma batalha que saiu vitorioso. Uma face judiada, mas maravilhada. Debilitado, mas com um sorriso contagiante na cara anêmica. Com as mãos sujas de tinta como um guerreiro com as mesmas sujas de sangue. Ou como um parto. Ou ainda, uma fera absolutamente extasiada por ter duelado com seu algoz, vencido e conquistado sua fêmea. Plenamente feliz por estar junto dela agora.

A arte me consome por ser o cerne na minha vida. Tanto desenhar como escrever ou outra arte que eu faça são impelidas sempre pelo meu estado de nervos. Quando releio um texto meu, algum tempo depois de passado o estado de espírito ao qual me encontrava, tenho tendência de me arrepender. Por me expor em demasia ou ser muito emotivo. É que procuro produzi-los sempre quando estou com os nervos à flor-da-pele. Para passar exatamente aquilo que eu sentia no momento. Com a cabeça quente. Toda aquela energia transposta no papel. Posso criar arte por trabalho, mas é heterogêneo. Sou meio ciclotímico, se deixar a poeira baixar, minha arte pode ser abortada. O momento não pode ser desperdiçado. Quem é artista (putz! Ó eu de novo. Não sou artista. Sou indefinível. Mas os sintomas são semelhantes), sabe que a inspiração aparece em qualquer lugar e onde menos se espera. Como disse, posso passar tempos sem nada que me venha à cabeça e de repente, uma "fome" surge e preciso me dirigir a uma mesa, sem saber quanto tempo passarei ali deste momento em diante. Conforme um código morse mandado por uma força superior. Sou só o aparelho. Minha função seria transmitir a mensagem de uma forma abstrata para a forma humana pragmática sem eu, e possivelmente ninguém, nunca entender o significado. Como um entregador. Onde sempre fico com a entrega e não sei o que fazer com ela. Sou um carteiro sem nenhum endereço e nenhum remetente. E as cartas nunca param de chegar. Pareço um peão masoquista que não consegue viver sem o seu trabalho escravo e prazeroso.

Publicado em 27/04/2006 no site da Void

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