quarta-feira, setembro 20, 2006

O VETERANO ERRADIO COM FERIDAS DE GUERRA E AMOR-PRÓPRIO

Deveria ir à praia às sete da manhã do dia seguinte, sábado, quando Gef me liga, diz que está com alvará de soltura da mulher e me convida pra dar um rolézinho descompromissado nesta sexta à noite. Havia saído um dia antes, mas não consigo recusar de sair e achei que dar uma volta pela cidade baixa não me custaria.

Passamos no Bells, entro, dou uma olhada e de soslaio avisto a garota que foi o grande amor da minha vida (por enquanto). Dissimulei que não a vi e saí fora. Não suporto fazer descaso e combato com mão-de-ferro todos os defeitos fodidos do meu caráter, mas escorpiano é uma sumidade no assunto, insidioso por natureza e quando menos espero, cometo essas malditas baldeações. Me deparei com um teste surpresa e rodei. O que houve? Acontece que já superei essa fase, mas não adianta, na vida sempre haverá aquela pessoa que será inesquecível, por mais curado que se esteja, cicatrizes são pra sempre, boas ou ruins, externas ou internas.

Por que agi assim se isso já não me abalava? Como pude ser hipócrita? Vulnerável? Não sou assim! Ela me deu o pé na bunda, mas nunca tive dor de cotovelo ou rancor por causa disso, mas então por que não agi naturalmente? Como fui fraco! A verdade é que eu vi que ela me viu. E vi também que seus olhos brilharam. Foi nítido. Isso que me desconcertou. Não esperava que ela tivesse essa reação. Não tive medo dela. Tive medo de mim. Do que poderia vir a acontecer se minha atitude fosse expansiva. Conheço-a perfeitamente e inúmeros ramais haveriam se eu tivesse sido receptivo. Esse foi meu maior temor. Se ela se portasse com desdém para comigo, penso que seria até melhor, por mais doído que fosse. Fui pego desarmado e de surpresa. Fui fraco porque tive medo de ser fraco, de não confiar em mim, sou instável, inconseqüente e imprevisível, natural que, às vezes, fique receoso, ainda mais por ser homem, quase todos somos cachorros vira-latas, basta elas fazerem “tsc, tsc” que já estamos abanando o rabinho, mas sempre tive convicção, firmeza de valores, elegância, postura e, principalmente, confiança no meu taco. Porém, droga, por que ela tinha que mexer no cabelo, arquear a sobrancelha, levantar o canto da boca e me fitar os olhos?!? Sei que disfarcei perfeitamente e ela não notou que a vi, contudo, não me cairiam as pernas se andasse em sua direção e fosse cordial, o que qualquer pessoa digna faria. Aliás, ela ia embora pra Europa! Que diabos está fazendo aqui ainda?!

Enfim, não me prostrei (ahh, nãããão, capaz...) e Gef e eu seguimos para o Ossip. Estava meia-boca. Não queria me estender, no entanto, Gef me pilhou para irmos à Neo, pois havia uma concentração lá quando passamos anteriormente. Topei. Entramos. Uma bosta. Senti que minha nota de dez reais criara asas e saiu voando. Agora azar. Ficamos ali curtindo o que dava, de qualquer forma. Algum tempo se passou, uma garota me pegou pelo braço e me apontou sua amiga. Falei “manda ela vir aqui falar comigo”. Se a montanha não vai até Maomé... Acabou eu indo. Demos uma volta pelo pico e rolou. Dancei apertado e ela me deixou tarado. Peguei contatos, Gef e eu vazamos.

Àquela altura já não conseguia mais dizer não e Gef me convenceu a ir para uma rave. Topei. Entramos. Outra bosta. Outra nota de dez voando. Encontrei um conhecido que me ofertou drogas. Não tinha mais grana e ofereci um anel de prata que usava, mas não serviu nele, talvez o relógio, pensei – PÔRRA, quê que eu to fazendo?! Não era só um rolézinho? A coisa está fugindo do controle. Resolvi me orientar e dei um tempo. Já eram oito horas...

Cheguei às nove em casa, fui pra praia e surfei de virada. Chega de emoções fortes por um tempo. Meu livro está cheio de orelhas e acho que preciso de um prendedor. O brabo é saber que esse tipo de marca nunca mais faz a folha voltar a ser como era...

Publicado em 01/08/2006 no site da Void

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