quinta-feira, outubro 23, 2008

VÍCIOS

Pra viver melhor neste país, tenho convicção que a melhor maneira é, além de sair dele, satisfazer os prazeres pessoais de qualquer maneira, mesmo se de forma transgressora - desde que não prejudique outrem -, incluindo vícios nocivos e fruição de futilidade ou bem material, sem se importar o quão ilusórios possam parecer, pois convivemos dentro da hipocrisia e esta faz parte da vida tanto quanto o belo, porque estar feliz é o intento principal para sobreviver, portanto, mesmo que efêmero, seja como o casamento, eterno enquanto dure e essa é a filosofia primordial pra todo ser humano. Por mais redundante que isso seja, nunca deixou de ser verdade. Um antigo provérbio chinês fala "melhor viver um dia como tigre do que cem anos como carneiro", e o medo é nosso maior inimigo, entretanto nosso maior guia, e como tal, tem a tarefa de nos mostrar as possibilidades até que possamos seguir sozinhos. Se devêssemos ser orientados a vida inteira, nasceríamos todos siameses.

Pessoas passam uma vida fumando, bebendo, na jogatina, usufruindo de drogas, prostituição e morrem cedo. Outros fazem o mesmo e vivem muitas décadas até partirem de causas naturais. Churchill bebia todo dia. Sua filosofia era que nas vitórias, ele merecia. E nas derrotas, precisava. Porque cada um é cada um. Uns ganham uma fatia maior do bolo e quem foi menorizado, que não viva a vida tentando entender ou recorrer da injustiça. Prefira este, adequar à sua maneira. Deus pode dar uma caixa com trinta lápis de cores ou com dez, mas o que você vai fazer com eles é o que diferencia. Quem não souber pintar, fará o que com tantas cores? O artista saberá, com poucas ferramentas, que não precisa pintar dentro do quadrado, pode violá-lo, abusar das direções e mostrar um jeito novo de ver o estereótipo, muitas vezes secular, e mudar o padrão. Quantos filmes, livros e infinidades de comunicações nos mostraram que ao saber que vai morrer, você quer fazer tudo, pintar e bordar, no mínimo de tempo que resta. Sou contra palestras motivacionais e não quero chover no molhado, mas não duvido que progrediríamos bem mais se nascêssemos com data de validade, aquela velha de viver cada dia como se fosse o último. Trata-se de não querer tirar a própria vida, mas não desesperar-se em tentar prolongá-la e sim viver mais em redenção.

Conhecer as facetas da merda é glorificante. Tive professores na minha família de todas as matérias: vítima de câncer; cocainômano que até seu último dia de baixa no hospital, rapou o prato; alcoólatra que viajou de cirrose; com AIDS; e os que estão na ativa, picaretas de todo tipo. Tudo que faziam não mudou em nada as pessoas cativantes que eram. E as últimas imagens que tive deles, foram de atração pelas suas peculiaridades, independente das condições mórbidas que se encontravam e das escolhas que fizeram. O grande prazer e satisfação da existência está em morrer feliz pelo que fez, por ter se arriscado tanto e conseqüentemente estar morrendo mais cedo pelo que tentou fazer ao invés de bater as botas com cem anos, vazio e incompleto por não ter provado de algum sabor por medo.

Olhe o nosso tamanho em relação ao planeta: ter raízes é o papel das árvores, elas nascem e crescem inertes. Nós precisamos de movimento. Nossas pernas são a maior parte do corpo. Os animais são irracionais, precisam ser territoriais. Nós pensamos, inventamos a tecnologia para seguir onde as pernas não conseguiam, atravessar os oceanos, as florestas e as montanhas. Ter o patriotismo não como posse, mas como geografia e ponto de partida, tornar-se cosmopolitano, conhecer todos os ideais possíveis, convivendo com os vizinhos, assim, tomar para si o que quer defender. Paul Gauguin, pintor francês de 1885, era um fracassado. Surtou, viajou pro Taiti e retornou com status de um dos mestres da pintura. Concordando com aquele velho ditado "nenhum pássaro aprende a voar dentro de uma gaiola".

O Brasil não. Esse país está indo para o fim. Quanto mais mexer na merda, mais ela fede. Observamos isso todo dia e é só ir às instituições, órgãos, coisas assim e sentirmos na pele que não funcionam, são filas, delongas, enrolações, saímos indignados, com a cara branca e o nariz vermelho, revoltamo-nos, queremos socar alguém, mas o culpado não está ali pra tomar o murro. Engolimos o sapo por ser explorados e os magnatas ficam faceiros por engordarem com nossa energia. Acreditem, como eu queria estar errado. Saber que seria questão de tempo. No entanto, quem ler isso, tenha certeza que não viverá pra ver. Remotamente, talvez seus filhos. Eu sigo me divertindo mesmo que tenha que me esconder pra satisfazer meus vícios. De repente eu viva pra ver leis liberais, mas do jeito que está, acho que não vai rolar nem que eu levasse uma rotina saudável.

Publicado em 23/06/2006 no site da Void

4 comentários:

Pettulantia disse...

Sabe que depois dos meus 30, me desprendi de certas mazelas morais, afinal quem paga meus carnês sou eu.
Sei lá.
Viver em função das mazelas de outrem, também larguei de mão.
E te confesso que minha vida retornou a cor...
vai saber, kkk.
:)

Andreana Oliosi disse...

Faço minhas as palavras da Pettulandia! Cheguei aos trinta anos sem nunca ter colocado uma gota de álcool na boca, nem cigarro, nem nada...agora ando fumando o meu Free aqui sossegadamente e está tudo mto bem, hehehehehe!

Beijão!!!!!!

Pedro Cassel disse...

chego aos vinte com cada vez mais desprezo pela moralidade e pelas proibições legais, hehehe

é isso aí, só quem sabe como podemos ser felizes somos nós..
e, no fim das contas, é tudo o que importa...

abraço!

Rogs disse...

O que vejo é conformismo, satisfação e destruição própria.
Não creio que tudo o que importa seja ser feliz. A consciencia e a verdade é o melhor caminho. Sem niilismo, nem usar desculpas pra se corromper.
Alguma moral é necessária, e vcs a tem. Nem que anarquista.
Estamos é desunidos, incapazes de nos unir. Desesperançosos. Essa coisa de o importante é ser feliz desestimula unir forças. Se cada um busca sua auto-realização, que se dane os outros.
O que aconteceu com a juventude?
[]'s