quinta-feira, outubro 30, 2008

TROMPETE DO PEIXE TRISTE

Saí para beber. Clima ameno. Muito vento. Pode-se ouvir as árvores cantando. As praças falando. Seres da noite. E eu era um deles.

Ele me diz, com a mão na cabeça, a bebida em punho e olhar ao chão “cara, vou me formar no fim do ano”. Do alto de seus quase dois metros e eterno olhar plongée, uma tonelada de interrogações de uma mesma doença, incurável.


Velhos amigos, muito tempo depois. Anos passando, gente diferente. Acho que estou ficando velho. Antes, nessas festas provincianas, todos se conheciam. Pareço um alienígena. Não reconheço mais minha casa, meu lar. O lugar onde vivi. Estou muito antiquado ou estou com a mente distante. Amigos que se conhecem há uma vida dividem a cumplicidade de uma experiência pura, sincera e engraçada.


Lembro de andar sobre o oceano. Com minha jovem presunção, aprender a tornar-me humilde. Agraciado com a leveza do ar e, por sua vez, sentir-se apreciado. Prêmios aquém da maturidade. Uma criança não ganha uma prostituta de presente.


O entendimento revelado só depois de pago seu preço inafiançável. Ou será apenas um equívoco. Perguntam ao meu amigo, por que trompete do peixe triste?


A noite tem algo onde os ébrios se encontram. É quase um relacionamento. Ando por ela. Rápido, mas cada minuto infinito. Conversamos. E flertamos. Honestamente. A nossa singela pena. O trem fantasma dos morcegos sem medo. E podemos sonhar.


A insegurança com o vento vai embora, porquanto traz seus obstáculos, todavia, confia em você como um pai confia no filho. Folheia meu caderno e sorri ao poder ver um segmento que a faz colorida, esquecendo de prisões.


Penso nas garotas que conheci. Penso numa garota. Como posso ter tanta aptidão para magoar ela. Absorvo sua tristeza. Posso senti-la em mim, posso ver os alfinetes que ponho em seu coração. E me sinto mau. Torturo-me com minha culpa. E destilo meu veneno agora em mim mesmo. Morro. Um escorpião não morre de seu próprio veneno, porém sente a dor. O auto-sacrifício vão. Inventamos formas de morrer. E Morro mil vezes.

Machucado, de aparência desagradável aos olhos privilegiados de ignorância, eu sigo. Sob desaprovação, eu me orgulho por ter chorado e com todos os pesos amarrados a meu corpo, sorrio. E descanso. Eternamente.

quinta-feira, outubro 23, 2008

VÍCIOS

Pra viver melhor neste país, tenho convicção que a melhor maneira é, além de sair dele, satisfazer os prazeres pessoais de qualquer maneira, mesmo se de forma transgressora - desde que não prejudique outrem -, incluindo vícios nocivos e fruição de futilidade ou bem material, sem se importar o quão ilusórios possam parecer, pois convivemos dentro da hipocrisia e esta faz parte da vida tanto quanto o belo, porque estar feliz é o intento principal para sobreviver, portanto, mesmo que efêmero, seja como o casamento, eterno enquanto dure e essa é a filosofia primordial pra todo ser humano. Por mais redundante que isso seja, nunca deixou de ser verdade. Um antigo provérbio chinês fala "melhor viver um dia como tigre do que cem anos como carneiro", e o medo é nosso maior inimigo, entretanto nosso maior guia, e como tal, tem a tarefa de nos mostrar as possibilidades até que possamos seguir sozinhos. Se devêssemos ser orientados a vida inteira, nasceríamos todos siameses.

Pessoas passam uma vida fumando, bebendo, na jogatina, usufruindo de drogas, prostituição e morrem cedo. Outros fazem o mesmo e vivem muitas décadas até partirem de causas naturais. Churchill bebia todo dia. Sua filosofia era que nas vitórias, ele merecia. E nas derrotas, precisava. Porque cada um é cada um. Uns ganham uma fatia maior do bolo e quem foi menorizado, que não viva a vida tentando entender ou recorrer da injustiça. Prefira este, adequar à sua maneira. Deus pode dar uma caixa com trinta lápis de cores ou com dez, mas o que você vai fazer com eles é o que diferencia. Quem não souber pintar, fará o que com tantas cores? O artista saberá, com poucas ferramentas, que não precisa pintar dentro do quadrado, pode violá-lo, abusar das direções e mostrar um jeito novo de ver o estereótipo, muitas vezes secular, e mudar o padrão. Quantos filmes, livros e infinidades de comunicações nos mostraram que ao saber que vai morrer, você quer fazer tudo, pintar e bordar, no mínimo de tempo que resta. Sou contra palestras motivacionais e não quero chover no molhado, mas não duvido que progrediríamos bem mais se nascêssemos com data de validade, aquela velha de viver cada dia como se fosse o último. Trata-se de não querer tirar a própria vida, mas não desesperar-se em tentar prolongá-la e sim viver mais em redenção.

Conhecer as facetas da merda é glorificante. Tive professores na minha família de todas as matérias: vítima de câncer; cocainômano que até seu último dia de baixa no hospital, rapou o prato; alcoólatra que viajou de cirrose; com AIDS; e os que estão na ativa, picaretas de todo tipo. Tudo que faziam não mudou em nada as pessoas cativantes que eram. E as últimas imagens que tive deles, foram de atração pelas suas peculiaridades, independente das condições mórbidas que se encontravam e das escolhas que fizeram. O grande prazer e satisfação da existência está em morrer feliz pelo que fez, por ter se arriscado tanto e conseqüentemente estar morrendo mais cedo pelo que tentou fazer ao invés de bater as botas com cem anos, vazio e incompleto por não ter provado de algum sabor por medo.

Olhe o nosso tamanho em relação ao planeta: ter raízes é o papel das árvores, elas nascem e crescem inertes. Nós precisamos de movimento. Nossas pernas são a maior parte do corpo. Os animais são irracionais, precisam ser territoriais. Nós pensamos, inventamos a tecnologia para seguir onde as pernas não conseguiam, atravessar os oceanos, as florestas e as montanhas. Ter o patriotismo não como posse, mas como geografia e ponto de partida, tornar-se cosmopolitano, conhecer todos os ideais possíveis, convivendo com os vizinhos, assim, tomar para si o que quer defender. Paul Gauguin, pintor francês de 1885, era um fracassado. Surtou, viajou pro Taiti e retornou com status de um dos mestres da pintura. Concordando com aquele velho ditado "nenhum pássaro aprende a voar dentro de uma gaiola".

O Brasil não. Esse país está indo para o fim. Quanto mais mexer na merda, mais ela fede. Observamos isso todo dia e é só ir às instituições, órgãos, coisas assim e sentirmos na pele que não funcionam, são filas, delongas, enrolações, saímos indignados, com a cara branca e o nariz vermelho, revoltamo-nos, queremos socar alguém, mas o culpado não está ali pra tomar o murro. Engolimos o sapo por ser explorados e os magnatas ficam faceiros por engordarem com nossa energia. Acreditem, como eu queria estar errado. Saber que seria questão de tempo. No entanto, quem ler isso, tenha certeza que não viverá pra ver. Remotamente, talvez seus filhos. Eu sigo me divertindo mesmo que tenha que me esconder pra satisfazer meus vícios. De repente eu viva pra ver leis liberais, mas do jeito que está, acho que não vai rolar nem que eu levasse uma rotina saudável.

Publicado em 23/06/2006 no site da Void

quinta-feira, outubro 16, 2008

PSICODELIA NO APARTAMENTO

Seria uma festa tranqüila. Mais uma. Fumei um e comecei a me embebedar. E fazia tempo que eu não aplicava um “nose grind”.

Uma menina adorável me avista. Uma moça que eu conheci há uns dois anos atrás, quando estava dormindo numa cadeira na parte de cima do Beco e Jeff me chamou para descermos e conferir uma última vez a outra pista. Então essa garota pára do meu lado imediatamente, conversamos e ficamos juntos aquela noite. E nessa ocasião, repetimos nossa antiga história.

Jeff conhecera uma garota pitoresca. Cabelo rastafári loiro, na altura dos ombros, simpaticíssima. Perguntei se topariam fumar mais um último cigarrinho, e a mesma dissera que poderíamos fazê-lo em seu apartamento. Ando bem ébrio ultimamente e parece que não encontrei mais gente que me acompanhasse nessa corrida, porém prefiro mesmo fumar sempre acompanhado. Gosto de dividir a sensação com alguém.

Despedi-me de minha garota, encontramos o caminho e fomos todos para a entrada de seu prédio. Entramos. Disse que estava sozinha, que poderíamos ficar à vontade. Meio apreensivo, perguntei se poderia acender ali mesmo, ela falou para ir tranqüilo. Olho para a mesa da sala e então vejo dois esmurrugadores, dois tabletes de maconha, cachimbos, maricas, e incontáveis baganas. Ali acreditei mesmo que ela não se importaria se fumássemos na sala. Adepta do Greenpeace, falava arrastado sobre comida orgânica, política e filosofava ao mesmo tempo. Tudo sempre terminando a frase com um “cara”. A conversa estava deliciosa. Fui acender meu crivo enquanto ela ligava outro - putz, pensei, de onde ela tirou um beck tão rápido? Divagávamos enquanto assistíamos a um show do Portishead. Fiquei bem relaxado. Daí vi que ela preparava mais outro baseado. E aquilo não ia parar tão cedo. Meus olhos já ardiam e parecia estar num filme de Cheech e Chong. Eu ria a cada dois minutos sem saber bem o motivo. Tudo para ainda presenciar um gato ter relações com um peixe colorido de pelúcia.

Essa menina, com apenas 21 anos, lésbica, tão invulgar e interessante, me lembra quando Hunter Thompson, interpretado por Johnny Depp no filme Medo E Delírio Em Las Vegas, ao ver o amigo partir, profere as palavras que eu usaria para descrever essa flor: estranha demais para viver, rara demais para morrer.

sexta-feira, outubro 10, 2008

A NOITE É UMA CRIANÇA


No fundo... Bem lá no fundinho mesmo... A vida é bela.

quinta-feira, outubro 02, 2008

CÉU DE BAUNILHA

Ela volta com taças, vinho e marijuana. Hoje pra você eu vendo um pouco do meu sentimento e um pouco do meu altruísmo, foram minhas palavras, ditas docemente enquanto a abraçava e beijava. Sentia-me um michê. Mas garotos de programa costumam não escolher clientes e usualmente fazer o serviço completo. Então eu era algo no meio-termo. Ela sentia o mesmo, eu não precisava perguntar. Era questão de aproveitar o momento. Uma noite com um frio agradável, propenso a bons amigos dividirem um espaço de tempo que poderá ser só uma mensagem numa garrafa pela imensidão do mar.

Ok, agora relaxe - amaciei-a.

Eu realmente gosto de fazer isso. Não sei por quê. Sempre gostei de fazer bem para alguém. Junto de quem se gosta, há muita satisfação envolvida. Sobretudo, comigo também é visceral. Eu olho pra sua parte e vejo um doce requintado. Gosto de sentir o gosto. Talvez seja por isso que elas chamem a mim. Não sei se é um dom ou se o faço com maestria por causa da minha avidez.


Não sigo um caminho. Aliás, não há um roteiro a se seguir. Não considero minha maneira de fazer, diferente. Quem sabe, peculiar. Gosto de descer sem pressa, saboreando todo o percurso. Pego uma perna, depois a outra. Geralmente, prefiro a esquerda primeiro. Beijo-as lentamente. Bem lentamente. Vou aproximando-me. Sem expectativa. Sem ansiedade. Não faço esforço para isso. Como disse, é natural. Como comer um delicioso petit gâteau. Neste momento estou deitado com minha boca ali. Beijos. Muitos beijos. Adoro fazê-los, e os mesmos expunham o apreço. Então uso três vertentes em três lugares determinados. E degusto. Credito sim que há muito conhecimento na geografia alheia, confesso que me aprimorei em desbravar esses terrenos, pois sempre me instigou tal ponto.


Por mais estranho e paradoxal que seja, o bônus nesse caso, é o afeto. Esse é o dom. Não é comercializado, pois pouquíssimos saberiam vendê-lo. E eu sei. Esse é o meu fado. Eu vendo os dois juntos. Porém, o segundo pode fazer mais mal do que bem se a usuária não souber separá-los. Eu digo qual a dose perfeita. Contudo, não consigo evitar que a desequilibrem. Não posso remediar, só prevenir. Já os dois, tomados adequadamente, fluem natural pelos poros. É benfazejo, confortante, e ambíguo para ambos a gratidão. É fazer o bem ao próximo e a si mesmo. Quão privilegiada torna-se aquela que entende o sentido recíproco de tal ato, e proeminente aquele que tiver referida aptidão.


E o fim é iminente.


Porque eu não posso ter tudo? Porque não posso ter você inteiro pra mim? Ela divaga, entre meus braços o peso do seu rosto morno pressionando com o ouvido, meu coração. Com olhos úmidos e a voz sôfrega, sua tristeza híbrida de paixão.


Pra você, hoje, será apenas o mesmo. Talvez eu não seja desse mundo, amor. Talvez eu tenha apenas uma função a exercer. Meu bem mais precioso, com todo meu respeito, terá dona, mas por meus toscos valores. Não me entenda mal ou sinta-se ofendida, só não peça tudo onde te dão pão. Minha querida, minha doçura, talvez eu seja mesmo é um sujeito antiquado e tolo e meu mal seja ainda acreditar no amor.


Agora vamos dormir.