quinta-feira, outubro 02, 2008

CÉU DE BAUNILHA

Ela volta com taças, vinho e marijuana. Hoje pra você eu vendo um pouco do meu sentimento e um pouco do meu altruísmo, foram minhas palavras, ditas docemente enquanto a abraçava e beijava. Sentia-me um michê. Mas garotos de programa costumam não escolher clientes e usualmente fazer o serviço completo. Então eu era algo no meio-termo. Ela sentia o mesmo, eu não precisava perguntar. Era questão de aproveitar o momento. Uma noite com um frio agradável, propenso a bons amigos dividirem um espaço de tempo que poderá ser só uma mensagem numa garrafa pela imensidão do mar.

Ok, agora relaxe - amaciei-a.

Eu realmente gosto de fazer isso. Não sei por quê. Sempre gostei de fazer bem para alguém. Junto de quem se gosta, há muita satisfação envolvida. Sobretudo, comigo também é visceral. Eu olho pra sua parte e vejo um doce requintado. Gosto de sentir o gosto. Talvez seja por isso que elas chamem a mim. Não sei se é um dom ou se o faço com maestria por causa da minha avidez.


Não sigo um caminho. Aliás, não há um roteiro a se seguir. Não considero minha maneira de fazer, diferente. Quem sabe, peculiar. Gosto de descer sem pressa, saboreando todo o percurso. Pego uma perna, depois a outra. Geralmente, prefiro a esquerda primeiro. Beijo-as lentamente. Bem lentamente. Vou aproximando-me. Sem expectativa. Sem ansiedade. Não faço esforço para isso. Como disse, é natural. Como comer um delicioso petit gâteau. Neste momento estou deitado com minha boca ali. Beijos. Muitos beijos. Adoro fazê-los, e os mesmos expunham o apreço. Então uso três vertentes em três lugares determinados. E degusto. Credito sim que há muito conhecimento na geografia alheia, confesso que me aprimorei em desbravar esses terrenos, pois sempre me instigou tal ponto.


Por mais estranho e paradoxal que seja, o bônus nesse caso, é o afeto. Esse é o dom. Não é comercializado, pois pouquíssimos saberiam vendê-lo. E eu sei. Esse é o meu fado. Eu vendo os dois juntos. Porém, o segundo pode fazer mais mal do que bem se a usuária não souber separá-los. Eu digo qual a dose perfeita. Contudo, não consigo evitar que a desequilibrem. Não posso remediar, só prevenir. Já os dois, tomados adequadamente, fluem natural pelos poros. É benfazejo, confortante, e ambíguo para ambos a gratidão. É fazer o bem ao próximo e a si mesmo. Quão privilegiada torna-se aquela que entende o sentido recíproco de tal ato, e proeminente aquele que tiver referida aptidão.


E o fim é iminente.


Porque eu não posso ter tudo? Porque não posso ter você inteiro pra mim? Ela divaga, entre meus braços o peso do seu rosto morno pressionando com o ouvido, meu coração. Com olhos úmidos e a voz sôfrega, sua tristeza híbrida de paixão.


Pra você, hoje, será apenas o mesmo. Talvez eu não seja desse mundo, amor. Talvez eu tenha apenas uma função a exercer. Meu bem mais precioso, com todo meu respeito, terá dona, mas por meus toscos valores. Não me entenda mal ou sinta-se ofendida, só não peça tudo onde te dão pão. Minha querida, minha doçura, talvez eu seja mesmo é um sujeito antiquado e tolo e meu mal seja ainda acreditar no amor.


Agora vamos dormir.

3 comentários:

Pettulantia disse...

Eu queria saber onde tu te escondes...?

Mica disse...

Lindas e doces palavras!
^^

juliana moura disse...

ainda estava pensando esses dias sobre como eu seria feliz se essa minha triste condição humana aceitasse a solidão absoluta.