Camila era seu nome.No Cabaret do Beco eu estava despretensioso, amortecido, também plenamente consciente e, como diria Jim Morrison, com as portas da percepção abertas. Junto com meu irmão, sentia aquela sensação de família reunida, ademais o Jeff, meu colega de fé de todas as noitadas, porra, tomara que ele não leia essa merda, contudo, ele é o meu cicerone, o guru em todos os meus momentos hedonistas, tipo um Pai Mei da boemia. Formando o quadrado, meu amigo dentista e habituée do lugar – não vou dizer o nome do moço “você sabe quem” até por admiração pela nossa amizade.
Breve entrei numa conversa ascensional com uma mulher, amiga do rapaz dos dentes. Eu estava, juro, totalmente zen, e não zen de chapado, um zen real, de tranqüilidade, sóbrio. Estado que poucas vezes consigo estar. Ora tô deprimido, noutra efusivo, minha ciclotimia fatídica.
Todavia, ela vestia uma jaqueta de couro, cabelo liso dum castanho claro quase bege, leve, que cascateava, pueril, até o início dos seus ombros. Calça jeans e All Star completavam seu corpo não malhado, tão pouco magrelo, no entanto perfeitamente distribuído. Sem maquiagem, artifícios ou excessos, na perfeita harmonia. Nossa, lembrava a Chan Marshall no auge da carreira. Sensual e atraente de uma forma despercebida às pessoas comuns. Mas pra mim? Sim. Pra mim ela era tonitruante. Característica, óbvio, de uma geminiana. Aquelas próprias que se caem na política, têm a prerrogativa da atração parapsicológica. Por isso, mantive-me ponderado, mas por dentro, algo acontecia. Meu irmão me olhava com sarcasmo absoluto. O pianista (que cuida dos teclados dos outros) ostentava espanto na fonte. Eu só queria beber. E o papo estava ótimo! Fluido como pistão e biela. Olha, sempre saquei essa coisa de química, entretanto, cagava, não atentava interesse. Porém, naquela hora, eu via os átomos no ar.
A Cat Power punha gradativamente a mão em mim. Era no braço, na cintura, vinha ao pé do ouvido, praticamente uma brisa de flores híbridas, doces e cítricas, soprava no meu pescoço palavras eruditas e persuasivas a qualquer homem. Em mim, derrubava os portões já. Os amigos me olhavam expectativos. Percebi que algo tinha que acontecer. Meu cúmplice tecladista emerge e pergunta “vocês não vão se beijar, não?” Ela e eu, atônitos, ficamos ambos embaraçados. “Só amigos” ela disse, me abraçando. Distraímos com uma digressão e reciprocamente passamos perto um da boca do outro. Eu teria a beijado. Nesse instante, seus lábios sussurraram na minha orelha, e pude senti-los feito penas celestes, algo evasivo. “Olha, você se incomoda se eu for ali cumprimentar uma amiga?” – disse. Senti que não rolaria. Cordialmente ripostei “claro que não, sinta-se à vontade.” Então encostara a mão em meu rosto - sentia pétalas acariciando-me a pele -, deu-me um beijo na bochecha com veemência, sutilmente lascivo, ambigüamente sincero, e saiu tão elegantemente quanto uma espartana.
É fato que as coisas são assim. Eu, “macaco velho” e navegador (vezes pirata) destes mares misteriosos, sei que, eventualmente, uma perífrase, um gesto, qualquer detalhe, pode inibir e a coisa simplesmente não acontece. E modestamente, sou cognitivo nesse terreno. O ator André Gonçalves disse certa vez “sou de escorpião, seduzo até maçaneta.” Então, não me prostro ou ponho-me a devanear como dialéticos de mesa redonda sobre chutes a gol. Isso não resulta nada.
A noite está apenas começando. Hora de comemorar. O dentista vem a mim e fala sobre a diva roqueira que eu conheci: “Cara, essa é a amiga mais LÉSBICA que eu conheço. E eu nunca a vi ficar com nenhum homem e se aproximar tanto de um quanto agora. Achei que vocês fossem se beijar.”
Puta merda – eu disse.
Todavia, ela vestia uma jaqueta de couro, cabelo liso dum castanho claro quase bege, leve, que cascateava, pueril, até o início dos seus ombros. Calça jeans e All Star completavam seu corpo não malhado, tão pouco magrelo, no entanto perfeitamente distribuído. Sem maquiagem, artifícios ou excessos, na perfeita harmonia. Nossa, lembrava a Chan Marshall no auge da carreira. Sensual e atraente de uma forma despercebida às pessoas comuns. Mas pra mim? Sim. Pra mim ela era tonitruante. Característica, óbvio, de uma geminiana. Aquelas próprias que se caem na política, têm a prerrogativa da atração parapsicológica. Por isso, mantive-me ponderado, mas por dentro, algo acontecia. Meu irmão me olhava com sarcasmo absoluto. O pianista (que cuida dos teclados dos outros) ostentava espanto na fonte. Eu só queria beber. E o papo estava ótimo! Fluido como pistão e biela. Olha, sempre saquei essa coisa de química, entretanto, cagava, não atentava interesse. Porém, naquela hora, eu via os átomos no ar.
A Cat Power punha gradativamente a mão em mim. Era no braço, na cintura, vinha ao pé do ouvido, praticamente uma brisa de flores híbridas, doces e cítricas, soprava no meu pescoço palavras eruditas e persuasivas a qualquer homem. Em mim, derrubava os portões já. Os amigos me olhavam expectativos. Percebi que algo tinha que acontecer. Meu cúmplice tecladista emerge e pergunta “vocês não vão se beijar, não?” Ela e eu, atônitos, ficamos ambos embaraçados. “Só amigos” ela disse, me abraçando. Distraímos com uma digressão e reciprocamente passamos perto um da boca do outro. Eu teria a beijado. Nesse instante, seus lábios sussurraram na minha orelha, e pude senti-los feito penas celestes, algo evasivo. “Olha, você se incomoda se eu for ali cumprimentar uma amiga?” – disse. Senti que não rolaria. Cordialmente ripostei “claro que não, sinta-se à vontade.” Então encostara a mão em meu rosto - sentia pétalas acariciando-me a pele -, deu-me um beijo na bochecha com veemência, sutilmente lascivo, ambigüamente sincero, e saiu tão elegantemente quanto uma espartana.
É fato que as coisas são assim. Eu, “macaco velho” e navegador (vezes pirata) destes mares misteriosos, sei que, eventualmente, uma perífrase, um gesto, qualquer detalhe, pode inibir e a coisa simplesmente não acontece. E modestamente, sou cognitivo nesse terreno. O ator André Gonçalves disse certa vez “sou de escorpião, seduzo até maçaneta.” Então, não me prostro ou ponho-me a devanear como dialéticos de mesa redonda sobre chutes a gol. Isso não resulta nada.
A noite está apenas começando. Hora de comemorar. O dentista vem a mim e fala sobre a diva roqueira que eu conheci: “Cara, essa é a amiga mais LÉSBICA que eu conheço. E eu nunca a vi ficar com nenhum homem e se aproximar tanto de um quanto agora. Achei que vocês fossem se beijar.”
Puta merda – eu disse.
4 comentários:
puta merda mesmo.
tomara que teu amigo não leia, porque a minha amiga leu e não gostou do que escrevi dela. hahaha
oh! inelizmente aquele último poema não fui eu que escrevi, os créditos e honras vão a Marcia Maia. mas adoraria a honra de um novo leitor!
Aliás, acho que também volto aqui mais vezes. Gostei da tua veia descritiva. gosto sim de descrições, bom até se perder nela às vezes.... e um texto q além de descritivo tem também referências do rock já tem dois grandes passos pra ser bom... ou delicioso.
Até mais
Primeiramente obrigado pelo elogio... na sequencia, sensacional seu texto, você já leu bukowski?! Achei a forma como tu conta a história, a expressão densa, curti demais! É isso ai =) Abs
Que susto, achei que era eu! Pô, no Cabaret de jaqueta de couro, calça jeans e all star...mas quando cheguei ao final tive certeza que não era eu mesmo! hehehehe
Muito bom o blog! =P
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