sexta-feira, maio 30, 2008

CÉU DISTORCIDO - PARTE 1

A rave. Meu orkut estava bombando de mensagens do tal orkontro [encontro via orkut], conduzido num tópico da comunidade 1200 mics. Ainda em Esteio, comecei o aquecimento na casa do meu amigo Jeff. Entornei umas duas cevas e já estava bêbado.

Partimos, Jeff, minha amiga Beta, sua amiga Desirée, e eu. Em Porto Alegre, nos juntamos a nossos outros amigos; Kaká, Zé e sua namorada, meu conterrâneo Marc, e um tal John. Quando chegamos, Kaká, John, Marc e eu ainda tivemos de trovar o cambista a nos vender ingressos a trinta reais. Kaká é quase um vereador e "relações públicas" em POA, então, conhecendo todos os cambistas, conseguimos um que topou negociar.


Entramos. Jeff havia comprado um ingresso VIP e tendo que entrar por outro lado, logo se perdeu de nós. Dei um tempo e resolvi tomar logo minha bala. Ninguém tinha ainda, só Jeff e eu. Então Marc perguntou se eu dividiria com ele e disse que me daria meio doce, no caso. Concordei. Ficamos perto das cabines de vendas de fichas para bebidas. Passado algum tempo, comecei a sentir lentamente os efeitos. De repente, Jeff aparece no meio da gente. Incomodei-o para irmos conferir o orkontro, em frente à caixa da direita e pedi meio comprimido. Saímos dali e logo vi que eu estava passado. Ao Jeff dividir a pastilha comigo, derrubei minha metade na grama. Pensei, me fodi. Não sei como, Jeff olhou para a grama, com inúmeros pontos brancos entre papéis, sujeiras e muitos outros dejetos e achou o meio ecstasy. Tomei e continuamos o percurso. Uma digressão: já vi muito isso acontecer e não sei como explicar, noutra ocasião, no antigo Beco da João Pessoa, uma garota achou nosso meio LSD no carpete escuro com zilhões de minúsculas porcarias a centímetros de distância. Coisas da noite.


Não tenho exatamente uma opinião formada a respeito de destino e coincidência. Todavia, quando acontece um encontro inesperado entre duas pessoas com interesses comuns, aprecio o inusitado. Uma garota me pediu um pouco da minha água. Ofereci e logo fui dando em cima (normal...).

-Olha, não sei se tu vai acreditar, mas sou lésbica.
-Tu tens orkut? - Rapidamente perguntei.
-Bah, pior que não.

Então a surpreendi.

-Se tu entrar na minha página, verá que estou numa comunidade chamada Adoro Lésbicas.

Bingo! Ela achou o máximo e disse que me daria seu msn. Lembra o que disse sobre coincidências? Pois é. Continuamos.

-Que tu faz? Estuda? - Ela me perguntou.
-Em ordem alfabética? Bem, sou desenhista...
-Aaaahhh! Não acredito! Eu também! Faço moda!

Considerando que eu já criei estampas para marcas de skate, diria que era uma coincidência e tanto. Ela pegou meu telefone e me passou seu msn em um pedaço de carteira de cigarros, pois eu não tinha condições de mexer com meu celular. Dei um beijinho na boca dela e segui.

Chegando ao orkontro, foi inútil. Eu não reconheceria nem minha mãe se ela estivesse ali. Posso dizer, que eu estava flutuando naquele momento. Estava me movendo em câmera lenta. Olhei em volta e percebi que aquilo parecia um baile gay. Jeff e eu estávamos, acho que na ala homossexual. Senti-me como aquele cara que fica nu no filme Loucademia de Polícia.

-Ô meu... Vamos sair daqui. Só tem gay neste canto! - eu disse.
-Vamos achar umas minas... - Jeff respondeu.
-Porra, tô me sentindo peixe fora d’água aqui...

Fui mais para o lado, onde tinha umas garotas. Vi uma dançando com uma amiga. Ergui os braços e fui em direção dela. Dei um abração apertado. Ela correspondeu. Fui beijando-a no pescoço e logo subi pra boca. Eu não conseguia falar. Minha boca parecia estar derretendo. Esforçando-me, só consegui perguntar de onde ela era. Disse ser de Caxias. Não consegui mais do que isso. Disse ao Jeff "vamos voltar para nossos amigos. Esta gente aqui não é a nossa. Vamos encontrar quem realmente gosta de nós". Falava frases sem sentido.

Continua...

Publicado em 31/05/2006 no site da Void

sexta-feira, maio 23, 2008

LIMIAR

Conheceram-se ingênuos. Nada sabiam da vida, mas seus corações eram puros como água, sinceros, e oh, meu Deus, a tristeza pungente que nos toma as veias sem perdão e tentamos fugir, tentamos enfrentar, tentamos esquivar, mas ela vai e ela volta e no meio desse tempo a alegria surge apenas para gritar as diferenças entre uma ponta e outra.

E procuramos riquezas ao nosso redor, e não achamos e passamos e continuamos até querer morrer, tanto de desespero quanto de ódio ou lamento.

E o mundo chora junto comigo, tendo eu que vivenciar todos os lados horrendos dos patéticos seres humanos, sem entender porque na verdade todos nós nascemos misantropos na realidade.

E aonde a fortuna vai só para uns pequenos elfos, temos que ver, que sentir, invejar, para ir atrás do que esquecemos, a hipocrisia maldita verte do homem, sem ele querer, porque não sabe o que é.

O amor é o alvo de todo o estratagema, e eles sabem, por Deus no fundo do seu subconsciente eles sabem que são ricos. Os seres mais ricos da face da terra, as almas mais felizes do universo, encontraram um ao outro, sabem, que a chave da porta mais importante e valiosa está no seu peito, ali esta o divino, o cerne, o material abstrato sem preço, inestimável, onde só os animais por serem livres de pensamento carregam naturalmente em seus corpos bárbaros, cada um o mesmo tesouro, dado apenas às almas que não tem o discernimento de bem ou mal, apenas seguem livres seu faro.

E todos são protagonistas.

E apenas com dor, com êxtase, dopado, e estados assim se pode compreender, estágio insuportável para os humanos porque somos erradamente fabricados, inaptos no lugar onde nascemos, pois nem mesmo sabemos caminhar.

E partimos tendo que carregar a sina de não saber se haverá continuidade, carregando o que nem elefantes conseguiriam levar, o peso de todo essa riqueza e desconhecendo o que tudo aprendeu, a não ser a sua vida.

sexta-feira, maio 16, 2008

A FLAUTISTA DO BECO

Camila era seu nome.

No Cabaret do Beco eu estava despretensioso, amortecido, também plenamente consciente e, como diria Jim Morrison, com as portas da percepção abertas. Junto com meu irmão, sentia aquela sensação de família reunida, ademais o Jeff, meu colega de fé de todas as noitadas, porra, tomara que ele não leia essa merda, contudo, ele é o meu cicerone, o guru em todos os meus momentos hedonistas, tipo um Pai Mei da boemia. Formando o quadrado, meu amigo dentista e habituée do lugar – não vou dizer o nome do moço “você sabe quem” até por admiração pela nossa amizade.

Breve entrei numa conversa ascensional com uma mulher, amiga do rapaz dos dentes. Eu estava, juro, totalmente zen, e não zen de chapado, um zen real, de tranqüilidade, sóbrio. Estado que poucas vezes consigo estar. Ora tô deprimido, noutra efusivo, minha ciclotimia fatídica.

Todavia, ela vestia uma jaqueta de couro, cabelo liso dum castanho claro quase bege, leve, que cascateava, pueril, até o início dos seus ombros. Calça jeans e All Star completavam seu corpo não malhado, tão pouco magrelo, no entanto perfeitamente distribuído. Sem maquiagem, artifícios ou excessos, na perfeita harmonia. Nossa, lembrava a Chan Marshall no auge da carreira. Sensual e atraente de uma forma despercebida às pessoas comuns. Mas pra mim? Sim. Pra mim ela era tonitruante. Característica, óbvio, de uma geminiana. Aquelas próprias que se caem na política, têm a prerrogativa da atração parapsicológica. Por isso, mantive-me ponderado, mas por dentro, algo acontecia. Meu irmão me olhava com sarcasmo absoluto. O pianista (que cuida dos teclados dos outros) ostentava espanto na fonte. Eu só queria beber. E o papo estava ótimo! Fluido como pistão e biela. Olha, sempre saquei essa coisa de química, entretanto, cagava, não atentava interesse. Porém, naquela hora, eu via os átomos no ar.


A Cat Power punha gradativamente a mão em mim. Era no braço, na cintura, vinha ao pé do ouvido, praticamente uma brisa de flores híbridas, doces e cítricas, soprava no meu pescoço palavras eruditas e persuasivas a qualquer homem. Em mim, derrubava os portões já. Os amigos me olhavam expectativos. Percebi que algo tinha que acontecer. Meu cúmplice tecladista emerge e pergunta “vocês não vão se beijar, não?” Ela e eu, atônitos, ficamos ambos embaraçados. “Só amigos” ela disse, me abraçando. Distraímos com uma digressão e reciprocamente passamos perto um da boca do outro. Eu teria a beijado. Nesse instante, seus lábios sussurraram na minha orelha, e pude senti-los feito penas celestes, algo evasivo. “Olha, você se incomoda se eu for ali cumprimentar uma amiga?” – disse. Senti que não rolaria. Cordialmente ripostei “claro que não, sinta-se à vontade.” Então encostara a mão em meu rosto - sentia pétalas acariciando-me a pele -, deu-me um beijo na bochecha com veemência, sutilmente lascivo, ambigüamente sincero, e saiu tão elegantemente quanto uma espartana.

É fato que as coisas são assim. Eu, “macaco velho” e navegador (vezes pirata) destes mares misteriosos, sei que, eventualmente, uma perífrase, um gesto, qualquer detalhe, pode inibir e a coisa simplesmente não acontece. E modestamente, sou cognitivo nesse terreno. O ator André Gonçalves disse certa vez “sou de escorpião, seduzo até maçaneta.” Então, não me prostro ou ponho-me a devanear como dialéticos de mesa redonda sobre chutes a gol. Isso não resulta nada.

A noite está apenas começando. Hora de comemorar. O dentista vem a mim e fala sobre a diva roqueira que eu conheci: “Cara, essa é a amiga mais LÉSBICA que eu conheço. E eu nunca a vi ficar com nenhum homem e se aproximar tanto de um quanto agora. Achei que vocês fossem se beijar.”

Puta merda – eu disse.

sexta-feira, maio 09, 2008

TORMENTA


De repente penetrei na minha infância

E pude lembrar toda minha redenção

Nostalgia do tempo que não volta mais

Quando eu tinha tudo, menos consternação


Subitamente penetrei na minha velhice

Onde voltei a sentir minha remissão

Porém já não tenho mais nada


Hoje identifico o cheiro que entra pela janela

Lembro dos rostos dos meus pais, do meu irmão, e choro

Tenho medo de me olhar no espelho

Pois não sou mais o mesmo


Agora assimilo tudo

Mas não compreendo mais

Ela continua a mesma

A noite tem a mesma aparência

Desde o primeiro dia que me viu

Sem eu sequer poder conhecê-la


Lembrarei do desgraçado que fui e que sou

Não mais poderei uivar

E sobre meu corpo dormirei


E todas as almas que comigo conviveram

Jamais poderão entender

O tamanho do amor que eu sinto por elas

Pois meu fado é padecer

sexta-feira, maio 02, 2008

ILUMINADO

Achei que só me deitaria no colchão improvisado da minha sala e assistiria O Iluminado (do senhor Kubrick) neste sábado à noite. Peguei o caderno da TV do Zero Hora e fui fazer o número dois. Meu celular tocou:

-Ôôôôôôô, atende pra mim que tô no banheiro!

Meu telefone toca o dia inteiro pra fazerem cobranças e à noite, quando deve ser alguém conhecido, é bem numa hora imprópria. Eu tenho este "carma". Passo o dia sem que ninguém apareça e é só entrar no banheiro que apertam a campainha, o telefone toca, etc. Minha coroa atende e me passa o celular. É o Jeff.

-Liga pro convencional. - digo.


Saio e atendo, então.


-E aí?

-Que tu tá fazendo?

-Nada. Qualé?

-Baah, meu! Tenho que ir numa casa com umas sete minas gostosas, cheias de balas, que estão sozinhas, e não tenho parceria pra ir!

-Aaaaah é?!

-Não, não. É brincadeira.

-Putz!

-Não, é que tô de banda, meu, e bah, tava a fim de fazer alguma coisa, mas não sei de nenhuma balada, que não seja forte...

-Sou parceiro. Nem que seja só pra ir pra um boteco beber e filosofar.

-Te arruma então que passo aí.


Eu havia tomado a decisão de poupar meu organismo até a rave do fim de semana seguinte, contudo, também não recuso nenhum convite dos meus amigos boêmios, desde que eu tenha grana. Era o caso.


Perambulamos pelos bares, pelo La Bodeguita, Nega Frida, Pe Palito, e no Ossip encontrei os amigos da praia mais ébrios que conheci em minha existência. Cézinha e Macarrão. Quando tinha meu quiosque em Atlântida Sul, os dois eram os consumidores 24 horas da cerveja. Eram conhecidos pela sua notável tolerância ao álcool, cujas atividades começavam desde que acordavam até a hora de dormir - isso, que sempre os via de dia e de noite e parece que não dormiam, de fato. Cézinha, certa ocasião, sofreu espasmos na praia, caindo de cara na areia. Outra, bateu seu carro, abriu um talho na testa, pegou um pedaço de silver tape e colou no corte. “Dá nada, galera! Vamo pra balada!” - teria dito na ocasião. O mesmo falecera de um ataque epilético na piscina da própria casa. Uma merda. Cultuava sua maneira hedonista de levar a vida. Era um bon vivant.


Jeff e eu paramos no Elo Perdido e resolvemos entrar, Estava cheio. Quase sem lugar para parar. Puxei papo com uma gatinha que disse ser de Espumoso. Ela era legal. Eu já estava ficando bêbado. Então chegou um tosco junto da mina e da sua amiga, alguém que estava com elas. Intimidei-me (pensei: deve estar pegando alguma?), saí fora. Mas acho que ele estava só de arroz...


Estava num cantinho e umas garotas pararam junto. Ofereci ceva a uma delas. Ela aceitou.


-Vem sempre aqui?


Ela perguntou. Pensei: ela puxou conversa, é um bom começo.


-Primeira vez - respondi - Mas neste aqui. Freqüentava quando era no outro endereço.


O papo engrenou, mas frio. Ela estava meio indiferente. Disse que acabara de se operar da apendicite (!) e estava meio cansada. Não sacava qual era a dela. Mas ela era legal. Seu nome, acho que era Larissa.


Dei uma banda. Falei com Jeff:


-E aí? - Jeff perguntou.

-Daquela árvore não sai fruto, acho.

-Ô meu! Pega, pelo menos, o telefone da gatinha, porra!

-Será?

-Claro!


Voltei e me pus mais na ofensiva. Ela disse que viriam buscá-la. Um fulano que era seu ex-ex-namorado (isso mesmo, ex-ex) - iiiiiiiiiii, já vi tudo. Disse que estava enrolada e com uma situação indefinida. Intimei pelo menos o telefone. "Anota aí", disse ela.


-Como é o nome? - perguntei.

-Clarissa. Nem lembrava mais, né...

-Não é isso. É que queria o nome todo, pra escrever no celular.


Eu lembrava o nome. Mas tinha entendido "Larissa". Enfim. Anotei. Beijinho na bochecha. Tchau-tchau.


Saímos, Jeff e eu, e no caminho até o carro, expliquei a conclusão da minha investida. Nisso, passou um cara, pelo jeito, tão louco como nós e disse:


-Não pegou nada...


Começamos a rir e o cara - com um blusãosinho da Rip Curl que parecia um outdoor - também.


-Sai daí, ô Rip Curl!


Rimos.


Não me resguardei pra rave. Azar.


Publicado em 23/05/2006 no site da Void