sexta-feira, setembro 05, 2008

NOITE FRIA

0:42.

Agora entendo quando dizem “vento cortando”. Vejamos, ele me disse que o ônibus passa aqui. À essa hora, eu pareço ser o único ser-vivo na parada.

1:24.

Droga! Já se passou mais de meia hora. E eu de mochila nas costas, congelando e ficando respingado dessa garoa nesse clima que mais parece Londres. Podia ser. Pelo menos lá, teria metrô.

Dois sujeitos se aproximando. Era só o que faltava. Um amigo me disse certa vez “se você está sozinho, à noite, numa parada de ônibus, existem duas maneiras de se portar: como vítima, ou como suspeito”. Fico na minha então.

- Ei! Cê tá esperando o ônibus aqui? – Ótimo. O que estão querendo? Fazer amigos?
- Sim.
- Você sempre pega ônibus aqui?
- Mais ou menos.
- Que horas passa o ônibus?
- Está na hora.

Minha única vez naquela parada, impetuosamente queria que o ônibus passasse mesmo. Os dois indivíduos de camiseta, reparando bem, sugeriam estar indo pra balada.

- Tá louco, tá muito frio, vamos a pé! – e trilharam na minha direção.
- Desistiram? – disse, com meu sorriso pilantra de dentes omissos e só com a diagonal esquerda içada.
- Pois é... Essa hora só tem o corujão, que passa de hora em hora. Não vamos esperar.
- Não, tem um estourando aqui.
- Se tu pega-lo, grita da janela pra nós então porque acho que não.
- Falou, gurizada!

1:42.

Guarda-chuva, sacola, desta vez, vindo da esquerda. Duas vezes seria muita sorte numa parada fora da minha cidade numa região do submundo porto-alegrense.

- Aqui passa o Passo Dornelles? - Devo ter cara de saudoso, só pode...
- Tu quer ir pra onde?
- Passo Dornelles.
- É pro caminho da rodoviária?
- É.
- Passa.

Magrinho, não falando nada com nada, ou era drogado ou meio lelé mesmo.

- Eu tava trabalhando no estacionamento aqui perto. – Dissertou.
- Uhum.
- Olha aquela mina. Bêbada.

De fato, vinha uma loura do outro lado da rua, trocando as pernas. Senti um cheirinho familiar. Fumava ganja.

- Se o cara tá de carro, já leva ela! - Ele disse.
- Aham.
- Tem mina que gosta de dois paus!
- Aqui tem várias putas.
- Lá perto da minha casa tem uma mina que usa calção de homem.

A conversa estava enriquecedora e desejava um ônibus mais que um Big Mac naquele instante.

- O senhor é roqueiro?

Eu vestia jaqueta de couro, jeans batido, tênis e, com certeza, o que o fez concluir a tese foi meu cabelo moicano. Continuamos mais um pouco o papo sem pé nem cabeça até que um ônibus surgiu, só que no sentido oposto.

- Olha! Aquele é o Passo Dornelles! – Disse ao mesmo tempo em que corria, frenético, até a outra parada. Verdade é que não sei se era mesmo o ônibus que ele esperava.

Que se dane! Ataquei o primeiro táxi que apareceu e fui embora.

2:08.

4 comentários:

helena disse...

Adorei o teu texto!
Que sexta-feira (?), hãn? aijsaiojs
Já pensou em escrever algum livro de contos? Esse seria um bem legal. :B haha
beijócas ;***

juliana moura disse...

quando estou sozinha na rua de noite eu sempre tento fazer a maloqueira pra me proteger. nunca deu certo. :(

Mica disse...

Mas tu vê só! Não visitava o teu blog porque no meu não mostrava atualização...
Tava com saudade dos teus posts sempre dotados de pernosticidade.
BjBjBj da Liloo

Pedro Cassel disse...

hahaha, do caralho!

passei por uma dessas tb...já pensava seriamente em passar a noite num posto ampm qnd o bus apareceu, hehehe

abraço!

ps1: demorei pra descobrir esse novo endereço!

ps2: apareçam aqui meu!