Eu nasci com um dom. Minha vida inteira, desde minha infância até a entrada na vida adulta, só uma coisa ocupava minha cabeça. Desenhar. Eu nunca me senti socialmente adaptado por isso. Meus pais me criaram com todo o amor do mundo, sempre me apoiaram nas minhas ações sem sequer questionar se isso viria a dar frutos posteriormente. Contudo, não estavam presentes para responder meu turbilhão de dúvidas acerca do meu comportamento. Eu olhava para todos e via que eu era diferente. As pessoas que eu conhecia iguais a mim eram estranhas. Como todo o adolescente deslocado, eu quis ser igual aos outros.
Abandonei minha existência até aquele momento, para sempre.
Uma nova pessoa renascia. Sem poderes. Sem extravagâncias ou esquisitices. Só aquilo que todo ser humano deseja ser: normal.
Entrei num mundo de sonho. Experimentei tudo aquilo que antes só imaginava como era. Com meu passado enterrado, não mais teria que voltar a vê-lo. Eu tirara minha armadura e aposentara o elmo. Tudo seria perfeito agora. Seria...
O super-herói que eu reneguei ser. Mas não se pode mudar a natureza.
Gradativamente, passei a freqüentar ambientes transbordados de artistas. E de repente me vi diferente de todos. Foi tudo que eu sempre quis, aquilo que eu sempre desejei. Por um tempo, foi fantástico. Entretanto, um vazio passou a me perseguir. Passei por um sentimento evolutivo até perceber um insight.
Os artistas que antes conviviam comigo não me conheciam mais. Eu os via e tinha muita vontade de revelar-me, pois eles me olhavam com desdém. Tive uma síndrome de Peter Parker, digamos assim.
Infelizmente, todos aqueles presunçosos e pseudo-artistas posavam como as estrelas principais do espetáculo. Nostálgico, eu os via e me sentia o mais idiota das pessoas por vê-los ganhar status ao se passarem por algo que eu era. "Como ousam, acham que realmente sabem o que é ser artista? O que vocês fazem para posar, eu era de verdade, sem louros da fama, mas na essência!" E assim eu entristeci.
Sobretudo, mais do que lamentar, eu me revoltei.
É como se uma profecia se concretizasse. Com o aparecimento de vilões mais poderosos, um salvador deveria surgir paralelamente, seguindo o curso natural da evolução. O mundo está em perigo, logo alguém deve aparecer para salvar a humanidade. Porém, sim, um herói retorna, aquele que pensavam ter desaparecido para sempre. Pega seu uniforme há muito esquecido. E ao invés de pôr a máscara, ele a tira. Contudo, mais que a salvação do mundo, ele veio com um objetivo bem menos grandioso, mas igualmente importante: salvar a si mesmo.
Um comentário:
Ótimo texto, ótimas palavras.
"Salvar a si mesmo", isso é algo que também estou tentando fazer. Pretendo superar traumas, medos, incertezas, entre outros, para, então, poder voltar a ser eu mesma.
Desculpa a demora para responder o comentário, é que eu tinha abandonado por um tempo o blog. Vi que tu já conseguiu colocar a foto sozinho, menos mal. :P
Beijos
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