Eu tenho um gosto muito peculiar. Nós, homens, somos impelidos desde a maturidade sexual a apreciar mulheres de barriga sarada, bunda lisinha, nariz retinho, bom, todos conhecemos o estereótipo. Cara, isso não me convence. Sempre fui a ovelha negra em meio às brancas, sempre pensei diferente e sempre duvidei das ditaduras. Quem determinou isso? Cadê o responsável? Sabemos que magreza é sinônimo de saúde, mas isso não é regra. Essa teimosia feminina em querer emagrecer, puta merda! Há de saber diferir obesidade e gordura nociva de biótipo. Eternamente comparando a arte com a vida, incito o(a) leitor(a) a recordar os quadros da Renascença: mulheres cheinhas, com busto, cintura e quadril fartos. Por que naquela época isso excitava o homem? Simples. Por causa da moda. Se a moda nos induz a andar padronizados, não viramos um rebanho então? Alienados imperceptivelmente por algum pastor de ovelhas? Nos tornamos autômatos até mesmo em nossos instintos, o que é uma catástrofe pra natureza.Talvez eu tenha nascido na época errada. Sabe o que me excita? Uma celulitezinha, uma estriazinha, uns pneuzinhos na cintura ou em outro lugar. Se tiver ruguinha, uma barriga saliente então! Não sei por quê. Tem um pouco a ver com meu signo, escorpião, mas não acho que seja um distúrbio ou uma manifestação inconsciente da minha idiossincrasia protestante. Não é um sentimento com instinto rebelde. É, de fato, um gosto intrínseco, diferente da minha perversão e meus fetiches. E sei que não sou o único. Uma parcela considerável de nós curte ter “onde pegar”.
Certa vez namorei uma garota que tinha o corpo perfeito. Tinha tesão por ela, até porque a amava e tal. Mas não sentia aquela gana, aquela vontade de devorá-la, embora ela fizesse um sexo fenomenal e o que mais me agradava era o fato dela não usar maquiagem. Mas, olha, depois dela, ficava com uma que era, posso dizer, comunzinha. Tinha estrias, celulite, pneuzinhos e, caralho, como isso me enlouquecia! Era só estarmos sozinhos em casa e ela me olhar atravessado que eu corria na sua direção com aquele estilo teatral de filme sujo, rasgando roupas, às vezes inclusive, com os dentes. Tenho esta atração lasciva pelos defeitos (são realmente esses os defeitos?), pelo inverso da beleza, pelo caminho oposto. O momento que mais me extasia é quando acordo com uma companheira e essa está com a cara absolutamente amassada, escabelada.
Napoleão, dias antes de chegar de suas campanhas militares, mandava emissários à corte para avisar Josefina, sua mulher. Ela sabia que, a partir do aviso, não tomaria banho até o marido chegar, pois ele era fascinado pelo cheiro natural de sua esposa. Bom, não chego a esse extremo (higiene é primordial), mas acho fantástico este tipo de pureza rudimentar. Usei a analogia de Napoleão, dizem que ele era maluco, por mim tudo bem, mas o ponto que quero chegar é que a beleza verdadeira é aquela mais natural possível. Esta artificialidade contemporânea me entristece. Silicone, dentes exageradamente brancos, lipo, bronzeamento artificial. Sou mil vezes mais um seio pequeno ou uma pele branca que nem papel. Soando meio poético, digo que a mulher ideal não tem de ser necessariamente bonita conforme o padrão que conhecemos, mas bonita para o seu admirador. Aquela mulher que tenha um detalhe, ou vários, ou a composição deles, um charme, entre milhões e milhões de mulheres, de vez em quando se vê uma que bate com a gente. Há qualquer coisa no formato do corpo, na distribuição do conjunto, uma determinada característica, uma coisa, enfim, que nos inebria.
Entendo que cada caso é um caso. Não sou hipócrita para dizer que não aprecio uma mulher bonita, entretanto, se digo que sou louco por loiras, morenas ou ruivas, não significa que qualquer uma serve. É a compatibilidade de gostos, distribuição, conjunto, sem generalização. Beleza tem o seu valor e nem toda é pejorativa, porém, é especial por ser característica de quem a possui. Assim como aquelas que tem particularidades excepcionais e exóticas. Digo e reafirmo que o problema são os eufemismos que nos dispõe como gado.
Sou do contra? Será? Bem, não estou interessado em saber.
Publicado em 28/08/2006 no site da Void


