sexta-feira, agosto 29, 2008

FRANQUEZA DE UM HOMEM SINCERO

Eu tenho um gosto muito peculiar. Nós, homens, somos impelidos desde a maturidade sexual a apreciar mulheres de barriga sarada, bunda lisinha, nariz retinho, bom, todos conhecemos o estereótipo. Cara, isso não me convence. Sempre fui a ovelha negra em meio às brancas, sempre pensei diferente e sempre duvidei das ditaduras. Quem determinou isso? Cadê o responsável? Sabemos que magreza é sinônimo de saúde, mas isso não é regra. Essa teimosia feminina em querer emagrecer, puta merda! Há de saber diferir obesidade e gordura nociva de biótipo. Eternamente comparando a arte com a vida, incito o(a) leitor(a) a recordar os quadros da Renascença: mulheres cheinhas, com busto, cintura e quadril fartos. Por que naquela época isso excitava o homem? Simples. Por causa da moda. Se a moda nos induz a andar padronizados, não viramos um rebanho então? Alienados imperceptivelmente por algum pastor de ovelhas? Nos tornamos autômatos até mesmo em nossos instintos, o que é uma catástrofe pra natureza.

Talvez eu tenha nascido na época errada. Sabe o que me excita? Uma celulitezinha, uma estriazinha, uns pneuzinhos na cintura ou em outro lugar. Se tiver ruguinha, uma barriga saliente então! Não sei por quê. Tem um pouco a ver com meu signo, escorpião, mas não acho que seja um distúrbio ou uma manifestação inconsciente da minha idiossincrasia protestante. Não é um sentimento com instinto rebelde. É, de fato, um gosto intrínseco, diferente da minha perversão e meus fetiches. E sei que não sou o único. Uma parcela considerável de nós curte ter “onde pegar”.

Certa vez namorei uma garota que tinha o corpo perfeito. Tinha tesão por ela, até porque a amava e tal. Mas não sentia aquela gana, aquela vontade de devorá-la, embora ela fizesse um sexo fenomenal e o que mais me agradava era o fato dela não usar maquiagem. Mas, olha, depois dela, ficava com uma que era, posso dizer, comunzinha. Tinha estrias, celulite, pneuzinhos e, caralho, como isso me enlouquecia! Era só estarmos sozinhos em casa e ela me olhar atravessado que eu corria na sua direção com aquele estilo teatral de filme sujo, rasgando roupas, às vezes inclusive, com os dentes. Tenho esta atração lasciva pelos defeitos (são realmente esses os defeitos?), pelo inverso da beleza, pelo caminho oposto. O momento que mais me extasia é quando acordo com uma companheira e essa está com a cara absolutamente amassada, escabelada.

Napoleão, dias antes de chegar de suas campanhas militares, mandava emissários à corte para avisar Josefina, sua mulher. Ela sabia que, a partir do aviso, não tomaria banho até o marido chegar, pois ele era fascinado pelo cheiro natural de sua esposa. Bom, não chego a esse extremo (higiene é primordial), mas acho fantástico este tipo de pureza rudimentar. Usei a analogia de Napoleão, dizem que ele era maluco, por mim tudo bem, mas o ponto que quero chegar é que a beleza verdadeira é aquela mais natural possível. Esta artificialidade contemporânea me entristece. Silicone, dentes exageradamente brancos, lipo, bronzeamento artificial. Sou mil vezes mais um seio pequeno ou uma pele branca que nem papel. Soando meio poético, digo que a mulher ideal não tem de ser necessariamente bonita conforme o padrão que conhecemos, mas bonita para o seu admirador. Aquela mulher que tenha um detalhe, ou vários, ou a composição deles, um charme, entre milhões e milhões de mulheres, de vez em quando se vê uma que bate com a gente. Há qualquer coisa no formato do corpo, na distribuição do conjunto, uma determinada característica, uma coisa, enfim, que nos inebria.

Entendo que cada caso é um caso. Não sou hipócrita para dizer que não aprecio uma mulher bonita, entretanto, se digo que sou louco por loiras, morenas ou ruivas, não significa que qualquer uma serve. É a compatibilidade de gostos, distribuição, conjunto, sem generalização. Beleza tem o seu valor e nem toda é pejorativa, porém, é especial por ser característica de quem a possui. Assim como aquelas que tem particularidades excepcionais e exóticas. Digo e reafirmo que o problema são os eufemismos que nos dispõe como gado.

Sou do contra? Será? Bem, não estou interessado em saber.

Publicado em 28/08/2006 no site da Void

sexta-feira, agosto 22, 2008

O RETORNO

Eu nasci com um dom. Minha vida inteira, desde minha infância até a entrada na vida adulta, só uma coisa ocupava minha cabeça. Desenhar.

Eu nunca me senti socialmente adaptado por isso. Meus pais me criaram com todo o amor do mundo, sempre me apoiaram nas minhas ações sem sequer questionar se isso viria a dar frutos posteriormente. Contudo, não estavam presentes para responder meu turbilhão de dúvidas acerca do meu comportamento. Eu olhava para todos e via que eu era diferente. As pessoas que eu conhecia iguais a mim eram estranhas. Como todo o adolescente deslocado, eu quis ser igual aos outros.

Abandonei minha existência até aquele momento, para sempre.

Uma nova pessoa renascia. Sem poderes. Sem extravagâncias ou esquisitices. Só aquilo que todo ser humano deseja ser: normal.

Entrei num mundo de sonho. Experimentei tudo aquilo que antes só imaginava como era. Com meu passado enterrado, não mais teria que voltar a vê-lo. Eu tirara minha armadura e aposentara o elmo. Tudo seria perfeito agora. Seria...

O super-herói que eu reneguei ser. Mas não se pode mudar a natureza.

Gradativamente, passei a freqüentar ambientes transbordados de artistas. E de repente me vi diferente de todos. Foi tudo que eu sempre quis, aquilo que eu sempre desejei. Por um tempo, foi fantástico. Entretanto, um vazio passou a me perseguir. Passei por um sentimento evolutivo até perceber um insight.

Os artistas que antes conviviam comigo não me conheciam mais. Eu os via e tinha muita vontade de revelar-me, pois eles me olhavam com desdém. Tive uma síndrome de Peter Parker, digamos assim.

Infelizmente, todos aqueles presunçosos e pseudo-artistas posavam como as estrelas principais do espetáculo. Nostálgico, eu os via e me sentia o mais idiota das pessoas por vê-los ganhar status ao se passarem por algo que eu era. "Como ousam, acham que realmente sabem o que é ser artista? O que vocês fazem para posar, eu era de verdade, sem louros da fama, mas na essência!" E assim eu entristeci.

Sobretudo, mais do que lamentar, eu me revoltei.

É como se uma profecia se concretizasse. Com o aparecimento de vilões mais poderosos, um salvador deveria surgir paralelamente, seguindo o curso natural da evolução. O mundo está em perigo, logo alguém deve aparecer para salvar a humanidade. Porém, sim, um herói retorna, aquele que pensavam ter desaparecido para sempre. Pega seu uniforme há muito esquecido. E ao invés de pôr a máscara, ele a tira. Contudo, mais que a salvação do mundo, ele veio com um objetivo bem menos grandioso, mas igualmente importante: salvar a si mesmo.

terça-feira, agosto 12, 2008

EXPOR QUEM SOU

Um mestre zen tinha centenas de discípulos. Todos rezavam na hora certa – exceto um, que vivia bêbado. O mestre foi envelhecendo. Alguns dos alunos mais virtuosos começaram a discutir quem seria o novo líder do grupo. Na véspera de sua morte, porém, o mestre chamou o discípulo bêbado e lhe nomeou sucessor. Uma verdadeira revolta tomou conta dos outros. - Que vergonha! – gritavam pelas ruas – Nos sacrificamos por um mestre errado, que não sabe ver nossas qualidades. Escutando a confusão do lado de fora, o mestre agonizante comentou:

- Eu precisava escolher um homem que eu conhecesse bem. Todos os meus alunos eram muito virtuosos, e mostravam apenas suas qualidades. Isso é perigoso; a virtude, muitas vezes, serve para esconder a vaidade, o orgulho, a intolerância. Por isso escolhi o único discípulo que eu conhecia realmente bem, já que podia ver todos os seus defeitos.

sexta-feira, agosto 08, 2008

PORNOGRAFIA É SAUDÁVEL

Como falar deliberadamente de sexo sem ser vulgar? Não sei. E nem me importa. Não sou um experiente falando. Com meu interesse inesgotável (e quem não é assim quando o assunto é sexo?), chego a criar no leigo a ilusão de realmente estar entendendo tudo. Sexo fascina a todos. Todos gostam. Falar de suas maneiras e formas não significa deturpá-lo. Nos anos 80, com o auge da AIDS, produziu-se um retrocesso forte, que gerou comportamentos sexuais muito conservadores. Agora que a AIDS quase se transformou em uma doença crônica, atrevo-me a devassar tabus e sugerir que, se é preciso muita cautela na hora de liberar o apetite sexual, reprimi-lo pode ser igualmente perigoso. É a causa e efeito dos vícios urbanos, TV, rádios, jornais e internet. Está tudo aí. Não tem como escapar e nem se deve. Praga da vida moderna, consultores sentimentais em atividade hoje nos meios de comunicação lançam tediosas crônicas dizendo-se liberais. Como filólogo, ninguém precisa ir por mim. Não só porque sou pervertido, mas prefiro perder o leitor a privá-lo de uma boa sacanagem sobre instintos sexuais. Por favor, não confunda isso com pedofilia, zoofilia e outros hábitos doentios. Falo de depravação entre duas pessoas com os órgãos sexuais funcionando, que nasceram perfeitas, não tem porque deixar de explorar ao máximo os infinitos meios de prazer. Dou um exemplo; os desenhos eróticos do século XIX. O refinado traço dos artistas refletindo a agitação sexual da alegre burguesia européia mostrando a pornografia como arte sob o pincel e o bico-de-pena. É disso que estou me referindo: pornografia como prática puramente hedonista é quase como uma expressão artística.

Não estou numa corrida em direção ao topo da ousadia e não sou ultra liberal. Gosto de explorar lesbianismo, sadomasoquismo, masturbação e sexo grupal. O que eu digo é para não reprimir os instintos. Tentam nos impor algumas regras absurdas, claro, bom-senso pra saber que não devemos matar, roubar ou fazer outras práticas abjetas. Leve em conta o aspecto biológico do sexo, sem DSTs. Em duas pessoas sadias, não há restrição. Na dúvida, é só se proteger. Mas ninguém precisa ser ortodoxo. Foda-se. Não acho que meu comportamento possa arrepiar os cabelos dos mais certinhos. Quem não tem a mais sórdida fantasia recôndita na mente? É intrínseco. Não há nada de imoral. Dizerem que é obsceno foi um eufemismo que ficou.

Quem ler meus textos pode ficar ofendido com tanta indecência, porém não estou provocando nenhuma reação nova. Se alguém destruir minha crônica, outros tantos devem tê-la guardado como simpatizante. Escrevo isso sem pretensão. Sabemos que sexo é uma polarização, todavia não é meu objetivo. Aprecio o sentido visceral e íntimo. Entenda que evidenciar que simpatiza com a minha causa não significa que você é safado ou pertence à determinada turma. E, mesmo que não seja adepto do swing ou coisa assim, você aprova ou vê beleza nesse tipo de relação. Este tipo de conduta, seja qual for, ligada ao sexo, atinge todos e é natural no Brasil, o país do Carnaval, da cerveja e das bundas mais bonitas do mundo (as femininas, pô!). Não quero saber se meus textos trazem notícias inéditas ou se foram elaborados sob notório efeito de ácido, não é uma crítica social (bem, talvez seja) e não imprimo nenhuma mensagem subliminar (bem, talvez imprima), tampouco estou dizendo que pornô é chique e deva se adotar a transgressão. Na minha idade, os hormônios fervem como lava derretida e completamente natural que eu escreva o que amo e odeio. Exorcizo taras e demônios mostrando minha visão, podendo parecer distorcida. Só desconfio de tudo que tentam nos impor. Não tento influenciar ninguém, até porque sou um merda, não tenho nem poder para isso. Cada um toma sua própria decisão em seguir os instintos mais rudimentares. E que arque com as conseqüências depois. Aqui ou em outro lugar. Mas onde ambos têm consentimento, não há regra. Pornografia não é corrupção.

Postado em 26/05/2006 no site da Void