É... Vou sentir falta desse bastardo... Ou não? Há esta altura, todos já devem saber. Ou não? Acho mesmo que não. Quer dizer, quem o conhecia de verdade, sabia que ele era amigo para todas as horas. Apesar de ter cometido infindáveis gafes, o que, no entanto, nunca o impediu de chegar atrasado e tentar consertar as coisas. Mesmo distraído, uma hora ele lembrava. Vou sentir falta desse merda, o Diego.Acho, de fato, que a maioria ainda nem sabe. Ele não possuía nem 200 amigos no Orkut, o que é uma mixaria nos dias de internet. Claro, alguém que valoriza a amizade como encontrar água no deserto não sairia por aí adicionando qualquer um como se quisesse mostrar uma coleção de borboletas e autopromover-se com isso. Aliás, esse prisma por onde via as coisas sempre me pareceu vanguardista. O que, obviamente, sempre o tornou deslocado. Porém com Diego, a lei de Aristóteles não funcionava. Com ele era oito ou oitenta. Ao mesmo tempo em que estava à frente de seu tempo, vivia nostálgico. Sempre ouvindo música que ninguém contemporâneo conhecia, sempre desconfiado quanto a novidades, ciente de que o grande amor está unicamente na carne, não nas futilidades abstratas ou em qualquer coisa que se agregue ao ser humano, se não simplesmente como viemos ao mundo. Que sujeito ambivalente o Diego. Incitava-nos a sermos realistas, a não nos apegar a esperanças vulgares, entretanto, nada me convence que no fundo, ele desejava mesmo era descobrir que estava errado e ser surpreendido.
Diego desenhava muito bem, ele também amava praia, adorava estar com amigos, todavia, necessitava da solidão. Sentia que precisava aprender a se curar sozinho, tornar-se autodidata e embora sofresse constantemente, não abria mão disso, pois por alguma razão, deveria passar por isso.
Ele era um mascarado. Mascarado?! Sim! Mas não no sentido pejorativo. Era sincero até demais. Usava uma máscara, mas de palhaço. Queria sempre ser visto sorrindo e fazer todos à sua volta rirem também porque não suportaria que as pessoas que amava vissem sua verdadeira face e entristecessem. Era egoísta para poupar desconfortos maiores. Seu sofrimento, suas vergonhas, eram só seus.
Sabia desenhar, sabia escrever, conseguia montar esculturas, era diletante acima de tudo, herdara essa capacidade de sua mãe geminiana e nunca, de maneira alguma se dava por vencido, cairia ao chão lutando, característica de seu pai, leão.
Escorpião, destilava seu veneno só em si mesmo. Imolação e sina que optou aceitar para não machucar seus circunstantes. Sobretudo, errava e nunca parava de cometer acidentes. Aptidão para matar com uma ferroada, mas portador de uma graça, apenas um gesto, só um alento, e tudo virava rima. Odiava ser chamado de artista. Achava que não merecia. Como todo movimento artístico renovador, em ruptura com aquele que o precedeu, deveria morrer e depois ser compreendido.
Escovou os dentes. A escova ficou suja de sangue. Dormiu com febre. Sozinho. Acordou inúmeras vezes suado e totalmente coberto pelo edredom. É o fim. Mas espere... O sol entra pela fresta da janela. Ouço as vozes de meus pais brigando pelo bem-estar de meu sobrinho, com a drogada da minha cunhada. Não foi morte. Helenista filho da puta... Não lembrei de sua peculiaridade mais pitoresca! A de fênix. A de renascer.
Publicado em 10/09/2006 no site da Void
3 comentários:
Eu gosto da minha cidade, mudei esses tempos pra única cidade do Brasil que sempre quis morar, o problema mesmo é comigo e com meus horários excentricos.
Confesso que demorei um bom tempo até perceber que você falava de você no texto. Já ia dar os pêsames pela perda de algum amigo.
abraço!
die,eu tô sempre no teu blog à procura de novas postagens. às vezes elas são tão superiores e precisas que não consigo comentar. embora tenha impressão de já ter lido essa, ela me deu esse "branco" para o comentário.
aliás, lembrei de ti esses dias, comecei a ler bukowski. :)
Que horror! No início pensei que tu tinhas morrido e alguém estava postando por ti.
Aí percebi que não pq A)Não sei se algum amigo teu saiba tua senha, B)Teu fotolog tá sempre atualizado e C)Ao continuar com a leitura, vi que o modo de escrever é tipico de um escorpiano filho de leonino e geminiana.
BjBjBj
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