Julian é um amigo peculiar. Ele possui um instinto de subsistência similar aos nossos primatas. Falo de um comportamento realmente eficiente. Ele consegue passar vários dias sem comer, consome muito pouca água e é imprudente (é, inconseqüência é um dote de sobrevivência, pois arriscando-nos, aprendemos a viver). Um pouco se deve ao seu biótipo que, como os ursos, consegue comer e armazenar reservas. Entenda que isso é uma vantagem. Na época das cavernas, ele, com certeza, seria um dos sobreviventes sempre.No entanto, essa característica fisiológica do Julian não se emprega hoje. Essa aptidão física de vigência não serve no dia a dia contemporâneo. Salvo exceções: o caso de uma guerra ou o fim da civilização (embora pareça que estamos rumando nessa direção).
Mas primazia também pode ser um problema. No nosso meio, isso não é tão importante. E esse mérito de guardar energia faz com que Julian sofra de certo grau de obesidade. Ele mantinha-se magro, porém, no momento que parava com as atividades, engordava rapidamente. Talvez por isso, um ser humano com particularidades tão insólitas não se encaixe no próprio habitat em que nasceu. Embora ele também tenha um ótimo senso de adaptação.
Posso dizer que conheço Julian quase como alguém da família. Surfávamos quase sempre juntos, nos drogávamos juntos, dividiamos as mesmas mulheres, e passávamos as mesmas roubadas juntos. Lembro que combinávamos de irmos, no inverno em Atlântida Sul, pegar onda. Eu ia de ônibus, de carona, ou com a minha família e ele com sua Honda Bizz ou outra moto cujas trocas predominavam. Vestíamos nossas roupas de neopreme, que nos deixam limítrofes e não tem eficácia total, porquanto nossas mãos, pés e cara doem conseqüentes da água congelante. Éramos nós e algum outro kamikaze no mar e, em alguns casos, só Julian e eu. Naquelas ocasiões, tempo cinza com nuvens pesadas de preto, sob chuva e vento castigantes, raios mutilando o céu, e o mar parecendo um dilúvio – as eventuais ressacas –, eu não me estimulava muito. Nessas horas era ele quem me botava pilha para entrar. Às vezes, ele tinha mais fé em mim do que eu mesmo. Eu dizia “não vamos conseguir entrar nessas montanhas de água” e ele me incentivava “capaz que tu não vai varar esse mar, meu” e aí entrávamos. Em todas essas sessões, achávamos que íamos morrer sempre que entrava a série de tsunamis. E quase morríamos mesmo. Mas é essa sensação que é a síntese do surf e aquilo que não conseguíamos viver sem.
Julian fora internado em uma clínica de recuperação e ficou lá por seis meses. Alguém que eu pensava que não fosse derrubado tão facilmente, caiu. Paradoxo? Contradição? Sem dúvida. Não vencemos sempre. Muhammad Ali, Mike Tyson. Mas uma derrota não é necessariamente definitiva. Ela, sim, é necessária. Mas apenas para aprendermos a nos recompor e levantar.
Eu fiquei sem o meu amigo. E ele idem. Mas não é o fim. É uma lição. Temos que sofrer perdas. É preciso. Às vezes, é bom sumir por uns tempos. Poucos têm esse privilégio. É doloroso, porém revigorante.
Julian, hoje, saiu da fazenda, parou de surfar, está acima do peso, contudo, leva uma vida urbana normal.
2 comentários:
antes, eu EXIJO que atualize o blog. já li todo. ¬¬
ah, o teu fotolog parece um catálogo de agência de turismo na sessão "litoral". :D
Puuu... da última vez que estive por aqui tinhas perdido o jogo por uma dama...
Fico feliz de ver que voltastes a escrever, sempre me encanto/choco com a maneira que tens em descrever as situações, tão detalhado que consigo enxergar.
A vida apresenta situações estranhas sim, mas o que podemos fazer a não ser aceitá-las, já que não se pode voltar no tempo?
Hey, this is life.
BjBjBj da Lilloo
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