domingo, abril 29, 2007

BOXE

Acordar cedo após uma noite de porre não é fácil. Mas eu tinha que trabalhar e quando se está numa deprê, é pior ainda. Não me lembro de ter pedido a Deus em alguma ocasião para ter um coração forte, mas acredito que o fiz. E sabendo como Ele age, pois, se você pedir coragem, Ele mandará situações de medo para se enfrentar, comigo deve ter sido assim. Ele mandou paixões para mim. Meu coração continua a penar e só conseguia pensar numa coisa: No baralho da vida, pifei por uma dama... Mais uma.


Como de rotina, fui até a estação Luiz Pasteur. Enquanto esperava o trem, pensava na vida. Nesta hora, um senhor passou por mim e me deu “bom dia”. Murmurei um “ó” e neste instante, ele voltou e repetiu:


- Bom dia!

- Ah... Tudo bom! – Respondi e baixei a cabeça.


Sendo eu um misantropo, quando esse tipo de sujeito me aborda, logo penso “pronto, me achou...” Raras vezes estou expansivo e dou trela para pessoas de fila de banco, vizinhos ou gente assim. Então esse senhor continuou:


- Tu tá bravo?


Que petulância, não? Eu sou carrancudo, até aí, normal. Respondi que não.


- Tu tá triste?


Neste momento, eu realmente desequilibrei.


Eu sempre resisto a essas investidas, porém eu estava estafado ao extremo, como conseqüência de tombos progressivos que estavam me detonando e realmente estava com a guarda baixa, pois meus braços estavam cansados de lutar e tinha muitas caraminholas na cabeça para lembrar de ficar em postura de defesa. E nesta ocasião, este senhor foi tão perspicaz e certeiro que eu me desconcertei de tal maneira em que me senti derrotado, absolutamente sem nenhuma força para me proteger. Caído ao chão, cansado e se rendido à piedade alheia. Tentei responder, contudo, só consegui resmungar algo que nem eu entendi e no meio deste gargarejo, ele, mais uma vez, soube o momento exato de se colocar.


Antes que pudesse terminar qualquer resposta, ele pôs a mão no meu ombro.


Quando fez isso, o senhor me teve nas mãos. Senti que nada podia fazer. Nunca, em toda minha vida, fiquei à mercê de alguém como com este velhinho. Eu não tinha mais nenhuma condição de reagir.


- Quantos anos você tem? – Perguntou o velho.

- Vinte e quatro.

- Com a sua idade, eu já era tenente no exército, meu caro... – Falou algo assim e discorreu sucintamente sobre isso. Não me recordo muito bem, pois estava hipnotizado, inerte e vulnerável à sua frente. Pensei, bom, deve ser um destes velhinhos que tem tempo ocioso e se prendem a contar histórias de “eu já fiz isso, eu já fiz aquilo” e que hoje não fazem nada.

- E hoje o senhor é aposentado? – Fácil de deduzir. É sempre a mesma ladainha...

- Não, meu jovem. Hoje eu sou coronel.


Se meu queixo ora antes caíra, desta vez, uma sucuri ficaria com inveja do quanto meu maxilar se deslocou até o chão.


Concluiu:


- Confia em Deus que Ele sabe o que faz.


Ta aí! Deve ser de alguma igreja e vai tentar me influenciar para visitar o recanto.


Entretanto, com essa última frase, tirou a mão do meu ombro e partiu. Continuei em transe. A porta do trem se abriu e eu entrei. Neste momento, eu não consegui organizar mais nada na minha cabeça. Meu colega de trabalho, um evangélico (que na verdade, parece mesmo estar longe de ser santo, mas tem uma rica experiência), me diz: “O diabo veste saias”. Suponho que a qualquer momento, nosso demônio nos atenta, logo da mesma forma, nosso anjo tenta nos manterem focados e altaneiros. Ou tudo isso não passou de uma coincidência.

2 comentários:

Anônimo disse...

cara, esses velhinhos de parada de ônibus, estação de trem, etc, são mto lokos!
eles chegam no cara com historias mto lokas, começam a contar toda a vida deles, sei lah com q propósito...
mas um dia nos tornaremos velhinos de parada tb, então é melhor dar ouvidos a eles...

Anônimo disse...

Lindo isso!
A única experiência ligeiramente semelhante que tive a isto foi num ônibus onde eu segurava um livro e o senhor do meu lado olhou pra mim e disse: "Lendo?".
"Não", eu respondi. "Apenas finjo que leio para não ser incomodada".
=p
BjBjBj