sexta-feira, setembro 26, 2008

ESTREITANDO LAÇOS COM A MORTE

Ainda bebê, segundo relato de minha mãe, eu fugi de casa. Não sei como, mas eu me esticava na ponta dos dedos até alcançar a maçaneta e saía porta a fora. Nessa vez, fui encontrado num mato há significativa distância de casa.

Em outra fuga, após rodeios pela minha procura, fui encontrado na casinha de um cachorro feroz da região. Ninguém entendeu muito bem como fui parar ali. E como saí...

Criança, já consciente, lembro de atravessar uma rodovia em descompasso com meus pais mais a frente e sentir um carro bater violentamente em meu pé de trás e frear logo mais à frente, levantando uma névoa de fumaça e o típico cheiro de pneu queimado. Suponho, devido à física, meu pé apenas sacudiu e não sofri nenhum arranhão.

Nessa idade, passei por um acidente mais grave. Porém inóspito. Desde a infância, manifestava uma adoração por super-heróis, até aí, naturalmente pueril, mas nunca achei que pudesse escapar de um incidente como um.

Mas antes, uma digressão: como moleque serelepe, constantemente subindo muros, casas e realizando outros feitos inerentes, eu vestia-me como o tal. Andava com uma roupa de super-homem e capa. Eu sempre quis voar. Desde os esportes que eu escolho a qualquer tipo de atividade, eu pendia a isso. Surfando, eu gosto de embalar até atingir uma velocidade alta para então atingir com tremenda força a crista da onda e decolar. Essa sensação me transcende. É quase uma maneira real do ser humano voar. Pois não há força motriz ou o apêndice de um artefato. Senão uma simples prancha sob meus pés. E a força que me levanta é a própria natureza, ou seja, o mar. Skateboard também é assim. Nos parques de diversão, sempre preferi os mais perigosos, etc.

Continuando, eu andava de bicicleta com meu uniforme e capa, quando um carro me acertou em cheio. Eu esqueci tudo e minha remota lembrança é de ver o automóvel aproximando-se e o mundo girando em azul e branco depois.

Estava no hospital então. Não podia dormir porque batera a cabeça. Todavia, o curioso foi que eu não sofrera nada.

Testemunhas relataram que no impacto eu voei por cima do capô batendo com minha bunda no mesmo até cair no chão. De dano, só quem sofreu, foi o veículo, que ficou com um grande amassado no capô. Ninguém entendeu muito bem como uma frágil massa de carne venceu o metal sólido.

Aos quinze, tive dores terríveis de estômago e fui medicado com remédios pra dor que nada adiantaram. Passei dois dias com uma dor insuportável até ser diagnosticado corretamente por um competente médico e ser internado com urgência com apendicite aguda no hospital da minha cidade.

Acordei com uma bela cicatriz do meu umbigo até quase o meu... É, quase lá.

Eu tenho certo fascínio pela morte. Não que eu queira morrer ou a ache agradável, mas trata-se da curiosidade que move o ser humano a querer conhecer aquilo que teme. Às vezes eu a temo, às vezes não. Talvez porque eu já a conheça há um bom tempo.

sexta-feira, setembro 19, 2008

A GAROTA DO POSTO

Nós, homens, somos tapados por natureza. Credito um pouco à história da evolução, donde éramos trogloditas e vivíamos pragmaticamente sob instinto, como verdadeiros selvagens. Muitas vezes, não reconhecemos os sinais. O simbolismo, romântico e subjetivo, quebra nossa cabeça e preferimos agir como ratos atrás de queijo, deixando as entrelinhas de lado.

Depois de algumas bebidas, alguns cigarros, jogatinas, volto pra casa, mas antes, decido parar no posto de conveniência da minha cidade para comprar uma pizza e um chocolate, hábito usual.

Mais que a larica, lembro-me de inúmeras ocasiões, aterrissar ali e uma mulher, aparentando lá seus trinta, sempre me atender. Muito simpática, notória balzaquiana. Trocávamos sorrisos superficiais e o que muito me chamava à atenção para com ela era sua maneira de resolver as coisas. Trabalhando de madrugada, seguido apareciam bêbados ou outra corja de impertinentes tentando alugar seu precioso tempo para conversas evasivas onde nem psicólogos gostariam de deitarem-nos em seus divãs.

Eu a admirava sem perceber. Na minha cabecinha desmiolada, e instinto masculino, seu estilo me representava uma mulher forte em sua essência. Trabalhando à noite, submetendo-se às barbáries de uma rotina desgastante e nada saudável por, sei lá, alguma razão sustentável. E num retrocesso à Édipo, via nela as mesmas qualidades de uma mulher que seria capaz de tudo aonde a honra fosse permitido chegar, desde esfregar o chão até abrir mão de seu próprio bem-estar em prol de sua cria. Em resumo, uma mulher de valor inestimável.

Só da última vez que saí dali, que me caiu a ficha que ela me via de uma forma mais que profissional. Em um dia de frio, após eu dirigir-me ao balcão com minha pizza e meu chocolate em mãos, ela dissera em alto e bom som “ai, que calor”.

Então, agora eu queria uma pizza, o chocolate e ver aquele sorriso confortante. E talvez algo mais. Cheguei à loja, e ao olhar para o balcão, uma decepção. Ela não estava mais ali. Nunca sabemos o que foi, o que é, ou o que poderia ter sido. Fato é que, nós da minha espécie, merecemos pagar por nossa ignorância.

E, do fundo do meu coração burro, espero que ela encontre alguém com um valor igual ou superior ao seu. Porque mesmo sem nada saber desta garota, sei do que ela é feita. E ela deve ser feliz.

sexta-feira, setembro 12, 2008

INEFÁVEL


"A impureza está nos olhos do impuro".
- Cesare Zavattini -

sexta-feira, setembro 05, 2008

NOITE FRIA

0:42.

Agora entendo quando dizem “vento cortando”. Vejamos, ele me disse que o ônibus passa aqui. À essa hora, eu pareço ser o único ser-vivo na parada.

1:24.

Droga! Já se passou mais de meia hora. E eu de mochila nas costas, congelando e ficando respingado dessa garoa nesse clima que mais parece Londres. Podia ser. Pelo menos lá, teria metrô.

Dois sujeitos se aproximando. Era só o que faltava. Um amigo me disse certa vez “se você está sozinho, à noite, numa parada de ônibus, existem duas maneiras de se portar: como vítima, ou como suspeito”. Fico na minha então.

- Ei! Cê tá esperando o ônibus aqui? – Ótimo. O que estão querendo? Fazer amigos?
- Sim.
- Você sempre pega ônibus aqui?
- Mais ou menos.
- Que horas passa o ônibus?
- Está na hora.

Minha única vez naquela parada, impetuosamente queria que o ônibus passasse mesmo. Os dois indivíduos de camiseta, reparando bem, sugeriam estar indo pra balada.

- Tá louco, tá muito frio, vamos a pé! – e trilharam na minha direção.
- Desistiram? – disse, com meu sorriso pilantra de dentes omissos e só com a diagonal esquerda içada.
- Pois é... Essa hora só tem o corujão, que passa de hora em hora. Não vamos esperar.
- Não, tem um estourando aqui.
- Se tu pega-lo, grita da janela pra nós então porque acho que não.
- Falou, gurizada!

1:42.

Guarda-chuva, sacola, desta vez, vindo da esquerda. Duas vezes seria muita sorte numa parada fora da minha cidade numa região do submundo porto-alegrense.

- Aqui passa o Passo Dornelles? - Devo ter cara de saudoso, só pode...
- Tu quer ir pra onde?
- Passo Dornelles.
- É pro caminho da rodoviária?
- É.
- Passa.

Magrinho, não falando nada com nada, ou era drogado ou meio lelé mesmo.

- Eu tava trabalhando no estacionamento aqui perto. – Dissertou.
- Uhum.
- Olha aquela mina. Bêbada.

De fato, vinha uma loura do outro lado da rua, trocando as pernas. Senti um cheirinho familiar. Fumava ganja.

- Se o cara tá de carro, já leva ela! - Ele disse.
- Aham.
- Tem mina que gosta de dois paus!
- Aqui tem várias putas.
- Lá perto da minha casa tem uma mina que usa calção de homem.

A conversa estava enriquecedora e desejava um ônibus mais que um Big Mac naquele instante.

- O senhor é roqueiro?

Eu vestia jaqueta de couro, jeans batido, tênis e, com certeza, o que o fez concluir a tese foi meu cabelo moicano. Continuamos mais um pouco o papo sem pé nem cabeça até que um ônibus surgiu, só que no sentido oposto.

- Olha! Aquele é o Passo Dornelles! – Disse ao mesmo tempo em que corria, frenético, até a outra parada. Verdade é que não sei se era mesmo o ônibus que ele esperava.

Que se dane! Ataquei o primeiro táxi que apareceu e fui embora.

2:08.