sexta-feira, junho 27, 2008

É... Vou sentir falta desse bastardo... Ou não? Há esta altura, todos já devem saber. Ou não? Acho mesmo que não. Quer dizer, quem o conhecia de verdade, sabia que ele era amigo para todas as horas. Apesar de ter cometido infindáveis gafes, o que, no entanto, nunca o impediu de chegar atrasado e tentar consertar as coisas. Mesmo distraído, uma hora ele lembrava. Vou sentir falta desse merda, o Diego.

Acho, de fato, que a maioria ainda nem sabe. Ele não possuía nem 200 amigos no Orkut, o que é uma mixaria nos dias de internet. Claro, alguém que valoriza a amizade como encontrar água no deserto não sairia por aí adicionando qualquer um como se quisesse mostrar uma coleção de borboletas e autopromover-se com isso. Aliás, esse prisma por onde via as coisas sempre me pareceu vanguardista. O que, obviamente, sempre o tornou deslocado. Porém com Diego, a lei de Aristóteles não funcionava. Com ele era oito ou oitenta. Ao mesmo tempo em que estava à frente de seu tempo, vivia nostálgico. Sempre ouvindo música que ninguém contemporâneo conhecia, sempre desconfiado quanto a novidades, ciente de que o grande amor está unicamente na carne, não nas futilidades abstratas ou em qualquer coisa que se agregue ao ser humano, se não simplesmente como viemos ao mundo. Que sujeito ambivalente o Diego. Incitava-nos a sermos realistas, a não nos apegar a esperanças vulgares, entretanto, nada me convence que no fundo, ele desejava mesmo era descobrir que estava errado e ser surpreendido.

Diego desenhava muito bem, ele também amava praia, adorava estar com amigos, todavia, necessitava da solidão. Sentia que precisava aprender a se curar sozinho, tornar-se autodidata e embora sofresse constantemente, não abria mão disso, pois por alguma razão, deveria passar por isso.

Ele era um mascarado. Mascarado?! Sim! Mas não no sentido pejorativo. Era sincero até demais. Usava uma máscara, mas de palhaço. Queria sempre ser visto sorrindo e fazer todos à sua volta rirem também porque não suportaria que as pessoas que amava vissem sua verdadeira face e entristecessem. Era egoísta para poupar desconfortos maiores. Seu sofrimento, suas vergonhas, eram só seus.

Sabia desenhar, sabia escrever, conseguia montar esculturas, era diletante acima de tudo, herdara essa capacidade de sua mãe geminiana e nunca, de maneira alguma se dava por vencido, cairia ao chão lutando, característica de seu pai, leão.

Escorpião, destilava seu veneno só em si mesmo. Imolação e sina que optou aceitar para não machucar seus circunstantes. Sobretudo, errava e nunca parava de cometer acidentes. Aptidão para matar com uma ferroada, mas portador de uma graça, apenas um gesto, só um alento, e tudo virava rima. Odiava ser chamado de artista. Achava que não merecia. Como todo movimento artístico renovador, em ruptura com aquele que o precedeu, deveria morrer e depois ser compreendido.

Escovou os dentes. A escova ficou suja de sangue. Dormiu com febre. Sozinho. Acordou inúmeras vezes suado e totalmente coberto pelo edredom. É o fim. Mas espere... O sol entra pela fresta da janela. Ouço as vozes de meus pais brigando pelo bem-estar de meu sobrinho, com a drogada da minha cunhada. Não foi morte. Helenista filho da puta... Não lembrei de sua peculiaridade mais pitoresca! A de fênix. A de renascer.

Publicado em 10/09/2006 no site da Void

quinta-feira, junho 19, 2008

PERAMBULANDO

I


Em casa, doente. Porra. Mas tudo bem, o lado bom é que eu estava sozinho. A casa inteira só pra mim. Ah, e eu adoro isso.


II


Pizzas estocadas na geladeira. Dá pra viver um bom tempo assim. Ligo o DVD player, assisto uns pornôs, bleh, preciso comprar uns decentes, só tem porcaria. Vejo o mesmo de sempre, me masturbo, e ainda a fim de assistir TV, penso num Cult agora, mas estou enjoado dos mesmos. Foda-se. Vou dormir.


III


Tenho uma cirurgia marcada para daqui uns dias, logo, meu médico disse que eu não poderia fumar. De quarentena. Tedioso, mas vai ser interessante um período em jejum.


IV


Devido a um porre que tomei no aniversário da minha prima, estou tomando uma gama de remédios, pois fiquei com uma dor de garganta dos infernos. E essas porcarias químicas me deixam imprestável.


V


Sem fumar, sem beber, só me resta uma alternativa. Sorte o doutor não mencionar sobre meu vício número um...


VI


Madrugada, desço até o bar do meu amigo, próximo à minha casa. Merda. Uma concentração de gente. Quer dizer que vai ter algo. Ai, a tentação. Algumas garotas, putz. Mantenho o foco. Só ir até o balcão, falar com meu amigo e comprar o que eu preciso.


O Gérson me chama e diz que farão show logo mais ali. As meninas me notam chegar, entretanto, nada relevante.


VII


Não importa o lugar, eu sempre destôo do resto. Estou de cabelo comprido, cavanhaque e um “moustache”. Nunca considero isso vantagem, pois até eu me acho esquisito. E mantenho esse visual propositalmente para me sentir mais feio (do que já sou), sei lá o porque.


VIII


Algumas pessoas no balcão. Aproximo-me, estilo mineirinho, cumprimento meu xará. Ah, a recompensa. Só o que eu preciso nessa noite. Chocolate.

sexta-feira, junho 13, 2008

O VERDADEIRO ARTISTA

Os verdadeiros artistas não são os que freqüentam o topo do underground. São os que estão nos cantos escuros, mal vestidos, quietos, só observando. Afiados feito o bote de uma naja. No entanto, sentem-se bem ali e raramente atacam.

Os verdadeiros poetas não são os que escrevem bem. São os que ficam calados. Os que não são comentados. Porém sempre são lembrados. O verdadeiro poeta não é o que consegue retratar com mais fidelidade. Tão pouco o herói. É apenas aquele que sempre esteve ali e enfrentou tudo com entusiasmo. Foi o que participou. E não necessariamente o que apareceu.


Os verdadeiros artistas possuem um falso egocentrismo para driblarem os seres inferiores. Conseqüentemente estão em constante conflito com os mesmos, vezes ficando em seu lugar, vezes não. Característica essa copiada por fanfarrões, que terminam por deturpá-la, achando que o egocentrismo é a característica pitoresca do artista, aplicando-a como um rufião, porém jamais compreenderão seu real sentido.


Os verdadeiros artistas não estão nem aí. Pois esses “artistas” fixados que abundam por aí são nada mais do que chatos! O verdadeiro artista só segue seu instinto prático, pouco se importando em como sua obra será definida.


Os artistas não são superiores tal os deuses. Totalmente errado. Mais singelos que a peça mais rústica já criada, conseqüentemente ascendem, polivalentes, porque é nas pequenas e simples coisas triviais que se encontra o belo e o terrível da vida. Lugar quase insuportável de mortais estarem, todavia, são pioneiros por abraçarem esta briga desigual e jogarem-se à guerra, mesmo que para isso, tenha que ser sacrificada uma valorosa frente de batalha. É o jogo da guerra. É o instinto combativo. A força, o cerne, a engrenagem que faz o ser humano existir, a dúvida, as brigas psíquicas.


Andam como plebeus. Nossos anjos da guarda não são seres responsáveis, não, não. São seres traquinas. Escolhidos a dedo por Ele para apenas nos servirem de exemplo. E não importa o meio que estiverem, é no branco das nuvens ou nas profundezas do submundo que você os encontrará. Usando as mesmas porcarias que você, tomando o mesmo drinque que você. E você nunca desconfiará.


É uma pessoa que cruzou obstáculos escondido, mas acabou sendo visto. Aquele que só procura fazer você mudar a expressão. Mostrará que o possível está bem na sua fuça. E você nem sequer imaginará.


Vive numa sociedade secreta onde ele mesmo não sabe estar. Nascem com a cabeça desenvolvida para símbolos – a quarta dimensão – e outras formas de comunicação transcendentes, feito vampiros, que reconhecem um ao outro em meio à multidão. E revelam-se apenas se estiverem em um bom dia, assim como pessoas normais.


Ele vai fazer você voar, se pedir. Mas saberá controlar a sua ansiedade. Comedirá seus excessos para você não exagerar. Esses são os verdadeiros artistas.


Os reais não precisam de tatuagens, piercings, extravagâncias, entretanto usam se acharem atraente. Botam pra dentro do nariz, das veias, da boca. Mas não todos. Pois os normais não são as pessoas caretas nem as viciadas. Os normais são os que sabem distingui-las.
Você não tem que acreditar em anjos e demônios. Tem que aprender a andar entre eles. Contudo, o verdadeiro artista também é chavão. Sabe o quão bom é tomar um banho de chuva e o que significa uma dança. Compreendem como são as crianças, o arquétipo do ser humano. Sabem que elas são o lado perfeito da criatura.

O verdadeiro artista não é quem você pensa que é.

sexta-feira, junho 06, 2008

CÉU DISTORCIDO - PARTE 2

Encontramos nossos amigos e todos estavam na mesma sintonia àquela altura. Abraços, beijos, toques. A mesma coisa de sempre. Eu não me coordenava. Não possuía controle sobre minhas ações. Enxergava as pessoas deformadas. Lembro que via Jeff se transformar em outras pessoas e Marc parecer um ET. Na minha cabeça, eu me transformara num animal selvagem. Uma fera. Passei a investir na amiga da Beta, a Desirée. Sentia que as vibrações e a química eram exatamente como a de um leão querendo acasalar. Ela correspondia da mesma forma. Incrível a transmissão de sensações. Eu tentava mordê-la. Ela defendia-se com mordidas também. Perfeitamente como um leão, eu a agarrei com as minhas "garras", minha força, e a mordia, segurando-a com meus dentes fixados no seu pescoço. Sentia-me o próprio rei da floresta como macho atraído por uma fêmea no cio. Isso me fez refletir sobre o quanto essas substâncias podem nos fazer aflorar nossos instintos reprimidos a milhões de anos, quando éramos ainda animais. O quanto nossas percepções tornam-se aguçadas, como o faro, a agressividade, a sensualidade (ou só dão essa impressão). Jeff e eu resolvemos sair um pouco dali. Paramos no banheiro e nesse momento, quis que o banheiro da minha casa se materializasse ali. E, através de forças sobrenaturais, apareceu. Virei-me, completamente perdido, sem saber aonde ir. Um empurrão no ombro e ali estava ele. Em meio à minha loucura, achei que Jeff, em uma encarnação passada, teria sido meu pai. Ele caminhava à minha frente e eu pensava: Jeff é meu pastor e nada me faltará.

Na ala VIP tive o mesmo embaraço de antes; estava rodeado de gays. Não conseguia reclamar, não conseguia falar e mal conseguia pensar. Fiquei ali, inerte, como se estivesse preso e amordaçado. Quando consegui me mexer novamente, procurei a saída. Senti uma mão feminina no meu ombro, olhei e era uma amiga que conhecera na rave Summertrance e me encontrara posteriormente no Orkut. Ela me cumprimentou e não consegui responder. Fiquei como uma estátua na sua frente. Consegui dizer "tira os óculos". Até então, não a havia reconhecido. Cumprimentei-a e vendo que eu não conseguiria mais pronunciar nada, ela só disse “nos vemos lá embaixo...”

Não sei como, consegui sair de lá. Reencontrei minha turma e tornei a me envolver com a Desirée. Desta vez, senti que deveria atraí-la. Como certas aves que exibem sua penugem para atrair a fêmea, o jogo de sedução havia se invertido. Passei a dançar na sua frente, insinuantemente fitando-a nos olhos. Ela aproximou-se e me beijou. Ficamos em frente ao palco e logo Jeff se juntou a nós. Vezes eu queria sair daquele transe e outras, não queria que acabasse.

O dia clareou. Minha galera ficou ali em frente, junto com os circunstantes que igualmente fritavam como nós. Muita risada, muitas fotos e muitas bizarrices progressivas e a festa nunca acabava. Até que o DJ encerrou. Combinamos se iríamos à After e as opiniões se dividiram. Eu iria com o motorista do segundo carro, o John. Este, não estava em condição nenhuma de dirigir. A boléia foi passada para o Marc, que na saída, ainda optou por dar uns técos. Encontrei o primeiro carro com Beta, Geff, Zé e namorada, e a Desirée. Enfiei-me pela porta sem sequer levantar o banco.

-Me levem com vocês! Não me deixem ir no mesmo carro que estes insanos!

Acabei dormindo em POA, na casa da Beta e voltei à Esteio no domingo à noite.

Publicado em 31/05/2006 no site da Void