Primeiro entrei no inferno por alguns minutos. Ando por uma esteira em forma de montanha russa junto com seres incestuosos. Eu gosto até, mas odeio aqueles degenerados com aparência de porcos. As prostitutas, essas eu curto bastante. Gosto de olhá-las e imaginar a vida delas. Tipo, qual seria a relação delas com a profissão, como ela é em personalidade, etc. Estava tocando Raul Seixas. Não sou grande fã, mas escuto quando toca. Mas não adianta, lá tem sempre aquele fedor de vômito.
Encontrei a cambada e partimos rumo Beco. Tem algo que me incomoda. Uma garota. É uma história trivial, mas a sensação é estranha. A conheci faz só uns poucos anos, mas a nossa ligação rapidamente ultrapassou a amizade comum. Tornamos-nos amicíssimos e até confessos. Eu passei a ter uma atração por ela, meio erotônoma, mas tenra. Porém, é uma conjuntura que nunca alimentei, pois costumo manter os pés no chão, concretizado na realidade. A questão é que é difícil entender as mulheres e essa era mais ainda. Desconfiei em ensejos que eu falava de outras meninas e ela não mostrava atenção no assunto ou em determinados momentos, transparecia asco e raiva, todavia, mesmo eu sabendo de sua maneira subjetiva de ser, ela nunca demonstrara sequer uma pista, algo que ficasse no mínimo esgarçado, e as coisas morriam no vácuo.
Essa noite apenas serviu pra me provar o inverso. Em momentos de pele contra pele, uma sensação (só posso creditar) de doação apaixonada – duas pessoas como nós, do mesmo signo, escorpião, que costuma guardar muito amor no coração, e determinados momentos, ele explode e a gente tem que se aliviar – surgiu espontaneamente e ficamos juntos. Foi intenso, forte como red savina habanero. Em cada segundo, eu a respeitei como eu respeitaria a pessoa mais querida do mundo pra mim, prova disso foi que, vindo de uma maratona de putaria, não quis nem olhar para as borboletas que pousavam em meu ombro, ao contrário, ignorava-as com destreza. Além do meu sentimento sincero e puro para com ela, sabia (por ela mesma me relatar em fato passado) que ela é virgem e, assim, há nela o rudimento da natureza, o arquétipo da fêmea. E eu não quis cutucá-la com minha "macheza viril", embora em alguns momentos, ficava intrínseco e não dava pra conter.
Sobretudo, o que sucede é que depois disso, eu a acometi, além do que, eu estava em dúvida, sem saber o que se passava naquela caixa de Pandora, mas ela preferiu desviar da minha rota e cair em outra estrada. Eu estava superficialmente marcado, e ficando de fora, fiz o processo de deletá-la do meu coração – e este processo escorpiano pode ser a analogia de uma abstinência. Sofremos pra caralho, mas a desintoxicação é total. E na maioria dos casos, permanente. No entanto, mesmo machucado, cheguei a pedir pra Deus guiá-la na direção certa, ainda que nesse destino, eu não estivesse incluso. E isso que sinto, nem eu próprio entendo a razão; tenho este altruísmo incoercível de que a pessoa encontre o que eu não encontrei, o cerne da sua vida, é uma coisa subconsciente e imperativa que me toma as veias, sei lá por que, enfim.
Como o mundo gira 360 graus, ela foi largada em seu caminho.
Talvez por amadurecimento, por carência, recaída ou esterilidade das saídas, lembrou da existência de alguém que um dia foi transparente e amável. Mas daí, eu não podia mais voltar atrás. Um quadro que era bonito, que passou a ficar mais cheio de cores e brilhante, de repente se apagou por decisão alheia, nunca mais conseguiu retificar o desbotamento e agora cria uma sina de perder sua beleza mais etérea.