domingo, abril 27, 2008

JANELAS ABERTAS

- Ouso sim passar pra cá!
- Você está louco! Você pode ter tudo!

- São vozes, são pesadelos, a realidade é tudo hipocrisia!

- Você conseguiu o que muitos passam a vida almejando.

- Eu não consigo ver desta forma...

- Você consegue viver sabendo mais que todo mundo. Você, especialmente VOCÊ, nasceu com o dom natural do fascínio! Você quando inspirado, sempre podia sentir que tinha todo o poder nas mãos. Você apenas tinha medo de acreditar em todo seu potencial... Tem o dom do sucesso, da vitória.
- Nascer assim, e pensei muito sobre isso, quebrei minha cabeça o quanto pude pra aceitar o que eu acho, em virtude das estatísticas, sei a verdade. Que se pudesse escolher, preferiria ter nascido sem as janelas abertas. É difícil, depois que se vai tão longe, querer e conseguir voltar, entretanto, baseado em tudo, concluo que abriria mão de esquecer tudo que eu pude ver – muito mais claro que os outros – em troca da ignorância. Por mais imbecil, tosco e burro que isso pareça ser, e somente os eternos buscadores do Nirvana podem me compreender que, no final, descobrem que o caminho certo seria ter vivido a vida no sentido oposto. E o mais maldito, a exemplo complementar de argumento, é que só se descobre isso no fim da busca onde não há mais como voltar no tempo e recomeçar. Assim como seu jogo de falso desinteresse, mas eu sei que você é o mais ganancioso e hipócrita.

sexta-feira, abril 18, 2008

ARRANHÕES

Primeiro entrei no inferno por alguns minutos. Ando por uma esteira em forma de montanha russa junto com seres incestuosos. Eu gosto até, mas odeio aqueles degenerados com aparência de porcos. As prostitutas, essas eu curto bastante. Gosto de olhá-las e imaginar a vida delas. Tipo, qual seria a relação delas com a profissão, como ela é em personalidade, etc. Estava tocando Raul Seixas. Não sou grande fã, mas escuto quando toca. Mas não adianta, lá tem sempre aquele fedor de vômito.


Encontrei a cambada e partimos rumo Beco. Tem algo que me incomoda. Uma garota. É uma história trivial, mas a sensação é estranha. A conheci faz só uns poucos anos, mas a nossa ligação rapidamente ultrapassou a amizade comum. Tornamos-nos amicíssimos e até confessos. Eu passei a ter uma atração por ela, meio erotônoma, mas tenra. Porém, é uma conjuntura que nunca alimentei, pois costumo manter os pés no chão, concretizado na realidade. A questão é que é difícil entender as mulheres e essa era mais ainda. Desconfiei em ensejos que eu falava de outras meninas e ela não mostrava atenção no assunto ou em determinados momentos, transparecia asco e raiva, todavia, mesmo eu sabendo de sua maneira subjetiva de ser, ela nunca demonstrara sequer uma pista, algo que ficasse no mínimo esgarçado, e as coisas morriam no vácuo.


Essa noite apenas serviu pra me provar o inverso. Em momentos de pele contra pele, uma sensação (só posso creditar) de doação apaixonada – duas pessoas como nós, do mesmo signo, escorpião, que costuma guardar muito amor no coração, e determinados momentos, ele explode e a gente tem que se aliviar – surgiu espontaneamente e ficamos juntos. Foi intenso, forte como red savina habanero. Em cada segundo, eu a respeitei como eu respeitaria a pessoa mais querida do mundo pra mim, prova disso foi que, vindo de uma maratona de putaria, não quis nem olhar para as borboletas que pousavam em meu ombro, ao contrário, ignorava-as com destreza. Além do meu sentimento sincero e puro para com ela, sabia (por ela mesma me relatar em fato passado) que ela é virgem e, assim, há nela o rudimento da natureza, o arquétipo da fêmea. E eu não quis cutucá-la com minha "macheza viril", embora em alguns momentos, ficava intrínseco e não dava pra conter.


Sobretudo, o que sucede é que depois disso, eu a acometi, além do que, eu estava em dúvida, sem saber o que se passava naquela caixa de Pandora, mas ela preferiu desviar da minha rota e cair em outra estrada. Eu estava superficialmente marcado, e ficando de fora, fiz o processo de deletá-la do meu coração – e este processo escorpiano pode ser a analogia de uma abstinência. Sofremos pra caralho, mas a desintoxicação é total. E na maioria dos casos, permanente. No entanto, mesmo machucado, cheguei a pedir pra Deus guiá-la na direção certa, ainda que nesse destino, eu não estivesse incluso. E isso que sinto, nem eu próprio entendo a razão; tenho este altruísmo incoercível de que a pessoa encontre o que eu não encontrei, o cerne da sua vida, é uma coisa subconsciente e imperativa que me toma as veias, sei lá por que, enfim.


Como o mundo gira 360 graus, ela foi largada em seu caminho.


Talvez por amadurecimento, por carência, recaída ou esterilidade das saídas, lembrou da existência de alguém que um dia foi transparente e amável. Mas daí, eu não podia mais voltar atrás. Um quadro que era bonito, que passou a ficar mais cheio de cores e brilhante, de repente se apagou por decisão alheia, nunca mais conseguiu retificar o desbotamento e agora cria uma sina de perder sua beleza mais etérea.

sexta-feira, abril 11, 2008

CIRCUNSTÂNCIAS DA VIDA

Julian é um amigo peculiar. Ele possui um instinto de subsistência similar aos nossos primatas. Falo de um comportamento realmente eficiente. Ele consegue passar vários dias sem comer, consome muito pouca água e é imprudente (é, inconseqüência é um dote de sobrevivência, pois arriscando-nos, aprendemos a viver). Um pouco se deve ao seu biótipo que, como os ursos, consegue comer e armazenar reservas. Entenda que isso é uma vantagem. Na época das cavernas, ele, com certeza, seria um dos sobreviventes sempre.


No entanto, essa característica fisiológica do Julian não se emprega hoje. Essa aptidão física de vigência não serve no dia a dia contemporâneo. Salvo exceções: o caso de uma guerra ou o fim da civilização (embora pareça que estamos rumando nessa direção).


Mas primazia também pode ser um problema. No nosso meio, isso não é tão importante. E esse mérito de guardar energia faz com que Julian sofra de certo grau de obesidade. Ele mantinha-se magro, porém, no momento que parava com as atividades, engordava rapidamente. Talvez por isso, um ser humano com particularidades tão insólitas não se encaixe no próprio habitat em que nasceu. Embora ele também tenha um ótimo senso de adaptação.


Posso dizer que conheço Julian quase como alguém da família. Surfávamos quase sempre juntos, nos drogávamos juntos, dividiamos as mesmas mulheres, e passávamos as mesmas roubadas juntos. Lembro que combinávamos de irmos, no inverno em Atlântida Sul, pegar onda. Eu ia de ônibus, de carona, ou com a minha família e ele com sua Honda Bizz ou outra moto cujas trocas predominavam. Vestíamos nossas roupas de neopreme, que nos deixam limítrofes e não tem eficácia total, porquanto nossas mãos, pés e cara doem conseqüentes da água congelante. Éramos nós e algum outro kamikaze no mar e, em alguns casos, só Julian e eu. Naquelas ocasiões, tempo cinza com nuvens pesadas de preto, sob chuva e vento castigantes, raios mutilando o céu, e o mar parecendo um dilúvio – as eventuais ressacas –, eu não me estimulava muito. Nessas horas era ele quem me botava pilha para entrar. Às vezes, ele tinha mais fé em mim do que eu mesmo. Eu dizia “não vamos conseguir entrar nessas montanhas de água” e ele me incentivava “capaz que tu não vai varar esse mar, meu” e aí entrávamos. Em todas essas sessões, achávamos que íamos morrer sempre que entrava a série de tsunamis. E quase morríamos mesmo. Mas é essa sensação que é a síntese do surf e aquilo que não conseguíamos viver sem.


Julian fora internado em uma clínica de recuperação e ficou lá por seis meses. Alguém que eu pensava que não fosse derrubado tão facilmente, caiu. Paradoxo? Contradição? Sem dúvida. Não vencemos sempre. Muhammad Ali, Mike Tyson. Mas uma derrota não é necessariamente definitiva. Ela, sim, é necessária. Mas apenas para aprendermos a nos recompor e levantar.


Eu fiquei sem o meu amigo. E ele idem. Mas não é o fim. É uma lição. Temos que sofrer perdas. É preciso. Às vezes, é bom sumir por uns tempos. Poucos têm esse privilégio. É doloroso, porém revigorante.


Julian, hoje, saiu da fazenda, parou de surfar, está acima do peso, contudo, leva uma vida urbana normal. Normal?

sábado, abril 05, 2008

WHISKY COM GUARANÁ

Festa Orgasmo de eletrorock. Não pretendia me mexer, mas resolvi ligar pro Mauro e quando faço isso, aumento a probabilidade de sair em 50%, pois ele tem sempre uma carta na manga. Estou sem grana e quase vendendo meus móveis pra poder bancar minhas noitadas, mas enfim, que se foda. O que me impeliu também pra essa farra foi que se pagavam 25 pilas e a bebida era liberada.


Abrimos os trabalhos com whisky e refrigerante. O ambiente estava morno, então a banda She’s OK fez um pocket show para sacudir a galera. Mauro e eu já estávamos “prontos” àquela altura. Ficamos em frente à caixa de som e a festa começava a ficar boa. Tudo graças ao Mauro, pois nesta noite, ele realmente estava com o cu virado pra lua. Nunca o vi tão inspirado quanto nessa ocasião e acabei pegando carona.


Chegamos junto duma turma de garotas próximas ao palco tirando fotos entre elas enquanto se beijavam. Mauro passou a fotografá-las e quando percebi, estávamos todos dançando junto. Elas beijavam também uma dupla masculina onde ambos formavam um casal. As meninas eram liberais, notei, não só lésbicas. Beleza. Uma delas usava um chapéu pitoresco rosa que de repente estava na minha cabeça, tamanha minha distração. Reparei na dona dele, entre milhões e milhões de mulheres, de vez em quando se vê uma que bate com a gente. Há qualquer coisa no formato do corpo, na distribuição do conjunto, uma determinada característica, uma coisa, enfim, que impede o sujeito de se conter. Tinha o tamanho, os quadris, e a textura da pele do modo exato que eu gosto. Colei por trás dela, a coisa desenrolou, virei-a rapidamente e enfiei a língua naquela boca. Nesse meio tempo, Mauro pegava uma arranha-céu do grupo e outra que usava uma coroinha estilo miss.


Distraí-me novamente e Mauro pegara mais uma baixinha que não pertencia à trupe. Não sei direito como aconteceu, mas a amiga desta última, uma gordinha, veio tirar uma foto comigo. Dei uma lambida nela na hora da foto e ela me beijou então. Daí a pitoquinha que estava com Mauro ficou comigo e a minha com ele. Foi aí que a baixinha pediu que Mauro e eu nos beijássemos. Ele disse que não dava porque éramos irmãos. Boa resposta. Acho que ela não se conformou e apareceu com um amigo e me perguntou “você é gay?” Sinto te desapontar, mas só pego mulher, respondi, e agarrei logo ela. Nisso, Mauro fazia uma nova vítima, desta vez uma loira, que por sua vez, também ficou com a baixinha. Fotos e mais fotos rolaram e voltei a pegar a mais fofa e depois a baixinha e, bah, as mesmas, e continuou nesse ritimo até dar uma acalmada. Curto pacas essa promiscuidade, mas ainda prefiro conhecer uma única mina legal numa festa e, às vezes, vale mais ficar com uma dessas a noite inteira do que fazer rodízio. Em suma, foi divertido.

Mauro, acho que se empolgou em demasia e pegou uma baranga que, cruzes, era sinistra. Em seguida catou uma última alemoa, me pediu camisinha e foi pro carro. A festa esfriou, perdi meu gorro e ainda tive que esperar do lado de fora do carro a alemoa terminar o boquete em Mauro. Sem problema.

Publicado em 26/07/2006 no site da Void