domingo, março 23, 2008

EVOLUIR

É incrível como, às vezes, certas coisas banais nos derrubam. É difícil definir nossa própria força. Pergunto-me se depois de tanto superar constantemente meus limites: ficar internado uma semana no hospital; tatuar-me; varar mares de ressaca sob nuvens negras e trovões soturnos; sexo inconseqüente; intoxicar-me; tomar um fora da mulher que amava; conversar com meu pai na UTI enquanto mantinha um sorriso de alento na cara, quando na verdade, eu estava me despedaçando, em choque por dentro, por vê-lo vertendo tubos por todos os poros. O amor faz com que eu perca o interesse pela promiscuidade. Uma baixa de pressão, após uma agulhada em jejum, me surpreende. Como minha maneira altruísta e doação incondicional do meu amor terminam por fazer com que eu fique triste. Eu já convivi com ratos e já experimentei a sensação de não poder respirar. A gente nunca está pronto, nunca pára de crescer e se moldar.


A ilha estava afundando e todos os animais a abandonavam, jogando-se ao mar. O escorpião, sem saber nadar, implorava por carona, mas nenhum animal se atreveria a fazê-lo, pois temia que fosse picado. Pediu angustiado à tartaruga, que disse “ok, mas veja bem, se você me picar, ambos morreremos afogados”. Com sensatez, o escorpião topou imediatamente. Atiraram-se à água e durante o caminho, a tartaruga sentiu uma ferroada na nuca. Virou-se para o escorpião: “por que você me picou? Agora eu e você morreremos!” O escorpião disse: “não pude evitar. É minha natureza”.

sexta-feira, março 21, 2008

MINETE


"Não se encontra muitas vezes na natureza disposições tão benfazejas".
-Nietzsche-

segunda-feira, março 17, 2008

HERÓIS DA RESISTÊNCIA

Michelângelo, Donatelo, Leonardo e eu – uma mistura heterogênea, porém, ótima súcia – nos dirigimos ao Porão do Beco. Durante a noite, Donatelo mostrou-se um bêbado inconsciente e lesado a ponto de perder seu boné e criou raízes inerentes a um pilar. Leonardo foi dinâmico e pegou o espírito da coisa rapidinho. Michelângelo e eu... Bom, Michelângelo e eu fizemos a bandalheira de sempre.

Saindo de lá, no estado de praxe, fora que eu sempre acabo saindo dessas festas com síndrome de puta arrependida, porque adoraria encontrar alguém legal, mas no fim, boto fogo no cabaré, me atirei na calçada próxima ao carro (um Gol) enquanto os outros caíam na seqüência. Peguei uma chapa que cobre stepes de porta-malas no meio da rua e quis levá-la junto só para zoar. Problema é que a chapa era do nosso carro, já que o porta-malas do automóvel do Leonardo não tem tranca, então vimos que ladrões levaram nosso pneu reserva. Seria trágico até se Léo se importasse tanto, contudo, o carro é da sua ex, mãe dos seus dois filhos, e ele não liga.

Depois de disparates tipo Léo, do banco do co-piloto, levantar a saia de uma garota sem nenhum pejo, Donatelo passou a incomodar mais que uma criança de cinco anos. Em determinado momento sentimos um cheiro de queimado e, absortos, notamos que o cheiro vinha de dentro do carro. Procurando uma pista, percebemos que Donatelo exalava fumaça e que sua camiseta estava em chamas devido a uma labareda de baseado. Apagamos ele com coca-cola daí.

Deixando a malinha sem alça em casa, Léo teve a brilhante idéia de irmos ao seu sítio, em Nova Petrópolis, fazer um churrasco. Antes tomaríamos café da manhã na minha casa, em Esteio.

Acabamos
indo até a terra da Expointer para constatarmos que não havia uma mísera padaria aberta, para daí, ao invés de lanchar pelo caminho, voltar até Canoas, e em seguida atracar na minha cidade novamente, para daí seguirmos com o itinerário.

Durante todo o percurso, Michelângelo dirigia, pois Léo nunca fica em condições de fazê-lo nessas ocasiões. A porra é que Michelângelo não tem carteira de habilitação. Depois de uma tonta viagem (virados e dopados como estávamos na estrada sinuosa da serra) compramos um pedaço de costela e seguimos até o sítio onde Léo disse haver apenas um pequeno galpão, no qual ainda de quebra, não poderíamos abri-lo, pois não estávamos com a chave. Já no pico, percebi o tamanho da indiada: o tal galpão tinha o diâmetro de uma patente, não tínhamos água potável e sequer lugar ao redor para sentar. A carne seria assada numa tela de metal enferrujada com galhos em brasa e comeríamos com as mãos. Passados alguns minutos da operação Tarzan, a conclusão é que não seria possível a empreitada; na verdade, seria muito fatigante esperar o processo inteiro do churrasco.

Jogamos a costela semi-assada no porta-malas e iniciamos a jornada de volta à civilização. Léo parecia estar muito enjoado, suponho devido ao desgaste físico, à altitude do lugar e a ressaca. No carro, Michelângelo olhava apreensivo para Léo - que demonstrava sintomas de pressão baixa -, eu observava, preocupado, Michelângelo, para ver se não teria um teto ou algo parecido e ele me fitava de soslaio com olhar de mafioso siciliano para certificar que eu não o estava cuidando, pois, durão, não admitiria que precisasse de supervisão naquela hora. O que me deixava levemente em pânico era que naquela velocidade e natureza etílica, um centímetro fora da estrada, resultaria voar precipício abaixo. Todavia, estávamos nos esborrachando de rir por dentro diante dessa situação. E neste clima agradável de 40 graus a viagem fluía.

Léo então devia estar entediado e resolveu vomitar em si mesmo e no assoalho do carro. Paramos imediatamente relativo à patacoada e comprei uma água para ele, que ficou ofegando e se recuperando próximo ao carro enquanto Michelângelo e eu ficávamos rindo mais afastados. Fiquei surpreso, pois Leonardo já foi fuzileiro naval e achei que um soldado agüentasse mais, somando ele ser faixa preta em Tae Kwon Do e tendo no currículo o primeiro lugar da categoria num campeonato na Argentina, no mínimo, esperava um pouco mais de um guerreiro, mas tudo bem. Lavamos os tapetes e o banco do carro com refrigerante e continuamos. A única coisa que passava pela minha cabeça era se um policial resolvesse nos parar. Os três com cara de zumbis; o motorista sem carteira; o carona vomitado; as substâncias ilícitas; as latas e garrafas de cerveja; no banco de trás, pães rolando soltos; e ao abrir a mala, como explicaríamos um pedaço de carne tostada no lugar do step.

Enfim, Leonardo ficou uma semana de cama e Donatelo comprou uma camiseta nova e um boné. Michelângelo e eu, no outro fim de semana... Bem, fomos ao Beco de novo.