Acordar cedo após uma noite de porre não é fácil. Mas eu tinha que trabalhar e quando se está numa deprê, é pior ainda. Não me lembro de ter pedido a Deus em alguma ocasião para ter um coração forte, mas acredito que o fiz. E sabendo como Ele age, pois, se você pedir coragem, Ele mandará situações de medo para se enfrentar, comigo deve ter sido assim. Ele mandou paixões para mim. Meu coração continua a penar e só conseguia pensar numa coisa: No baralho da vida, pifei por uma dama... Mais uma.
Como de rotina, fui até a estação Luiz Pasteur. Enquanto esperava o trem, pensava na vida. Nesta hora, um senhor passou por mim e me deu “bom dia”. Murmurei um “ó” e neste instante, ele voltou e repetiu:
- Bom dia!
- Ah... Tudo bom! – Respondi e baixei a cabeça.
Sendo eu um misantropo, quando esse tipo de sujeito me aborda, logo penso “pronto, me achou...” Raras vezes estou expansivo e dou trela para pessoas de fila de banco, vizinhos ou gente assim. Então esse senhor continuou:
- Tu tá bravo?
Que petulância, não? Eu sou carrancudo, até aí, normal. Respondi que não.
- Tu tá triste?
Neste momento, eu realmente desequilibrei.
Eu sempre resisto a essas investidas, porém eu estava estafado ao extremo, como conseqüência de tombos progressivos que estavam me detonando e realmente estava com a guarda baixa, pois meus braços estavam cansados de lutar e tinha muitas caraminholas na cabeça para lembrar de ficar em postura de defesa. E nesta ocasião, este senhor foi tão perspicaz e certeiro que eu me desconcertei de tal maneira em que me senti derrotado, absolutamente sem nenhuma força para me proteger. Caído ao chão, cansado e se rendido à piedade alheia. Tentei responder, contudo, só consegui resmungar algo que nem eu entendi e no meio deste gargarejo, ele, mais uma vez, soube o momento exato de se colocar.
Antes que pudesse terminar qualquer resposta, ele pôs a mão no meu ombro.
Quando fez isso, o senhor me teve nas mãos. Senti que nada podia fazer. Nunca, em toda minha vida, fiquei à mercê de alguém como com este velhinho. Eu não tinha mais nenhuma condição de reagir.
- Quantos anos você tem? – Perguntou o velho.
- Vinte e quatro.
- Com a sua idade, eu já era tenente no exército, meu caro... – Falou algo assim e discorreu sucintamente sobre isso. Não me recordo muito bem, pois estava hipnotizado, inerte e vulnerável à sua frente. Pensei, bom, deve ser um destes velhinhos que tem tempo ocioso e se prendem a contar histórias de “eu já fiz isso, eu já fiz aquilo” e que hoje não fazem nada.
- E hoje o senhor é aposentado? – Fácil de deduzir. É sempre a mesma ladainha...
- Não, meu jovem. Hoje eu sou coronel.
Se meu queixo ora antes caíra, desta vez, uma sucuri ficaria com inveja do quanto meu maxilar se deslocou até o chão.
Concluiu:
- Confia em Deus que Ele sabe o que faz.
Ta aí! Deve ser de alguma igreja e vai tentar me influenciar para visitar o recanto.
